Felipe Lapa

BlogA cabeça que não desliga

Sobrecarga mental: o que fazer quando a cabeça não desliga

Para quem chega às nove da noite com a cabeça ainda rodando o dia inteiro: por que a sobrecarga mental não se resolve só organizando a agenda e uma pausa de três minutos para aliviar o que ficou represado.

Felipe Lapa6 min de leitura

Neste artigo 4 partes

São nove da noite e o dia já devia ter acabado. O filho quer atenção, o celular pisca com uma mensagem de trabalho que ficou para amanhã, a fatura do cartão ainda está para fechar numa aba do computador, e a cabeça segue repassando uma reunião de terça que nem aconteceu ainda. Nenhuma dessas coisas, sozinha, é grave. Empilhadas, são como água chegando numa represa que não abre as comportas: o nível sobe devagar, sem barulho, até a borda.

Se a sua cabeça parece nunca desligar, mesmo quando o corpo já está deitado, você não está exagerando nem sendo fraco. Isso tem nome: sobrecarga mental. E ela virou tão comum que muita gente aprendeu a chamar aquilo de rotina normal, quando na verdade é o corpo mandando um aviso que ninguém ensinou a ler.

O que está acontecendo, de verdade

Sobrecarga mental não é frescura nem falta de organização. Acontece quando a sua mente precisa processar mais do que dá conta ao mesmo tempo: prazo, conta, discussão que não terminou, decisão que ficou pendurada. Cada uma dessas coisas ocupa um pedaço de atenção, e a mente não tem como fechar sozinha nenhuma delas.

Os sinais aparecem devagar. Dificuldade de concentrar, esquecimento à toa, irritação sem motivo aparente, aquela sensação de estar sempre atrás. No corpo, vira dor de cabeça, ombro travado, intestino embolado. E como a cultura ensinou que estar sobrecarregado é sinônimo de ser competente, muita gente só presta atenção nesses sinais quando eles já ficaram graves demais para ignorar.

E isso vaza para fora da sua cabeça também. A paciência que sobrava para ouvir alguém até o fim encolhe. A vontade de rir de uma piada boba, de ficar sem fazer nada por dez minutos, de simplesmente estar presente numa conversa, vai embora primeiro. Não porque você parou de gostar dessas coisas, mas porque toda a disposição que sobraria está ocupada segurando o que ficou represado lá dentro, no piloto automático, sem deixar nada para o resto.

Talvez você já tenha organizado a agenda, feito lista, até tirado um fim de semana livre. E melhorou por uns dias. Depois voltou tudo. Isso acontece porque organizar a agenda mexe na quantidade de coisa para fazer. Não mexe no que já estava represado lá dentro antes de a agenda lotar.

A ansiedade deixou de ser exceção e virou o pano de fundo de muita gente. Isso não é fraqueza de ninguém, é um padrão coletivo, e o primeiro alívio costuma vir de parar de tratar a própria exaustão como falha pessoal.

Ignorar o aviso não baixa o nível da água, só deixa ele subir em silêncio. O sono piora, a paciência encolhe, a mesma discussão de sempre com quem você ama fica maior do que precisava ser. E tem um efeito em cadeia: quanto mais cansada a mente, menos ela resolve, o que faz a lista crescer mais rápido do que você dá conta de esvaziar.


Não é a agenda, é o que ficou represado

A ideia mais comum é que sobrecarga mental se resolve organizando melhor a vida. Faça uma lista, delegue o que puder, durma mais. Ajuda, sim. Mas não é a causa, é só a superfície.

A pressão que você sente não vem só da quantidade de tarefa. Vem de sentimento que ficou represado: a raiva que você engoliu na reunião, o medo que você não teve tempo de examinar, a tristeza que ficou para depois porque tinha reunião às nove. Cada emoção não sentida ocupa espaço, e o espaço que ela ocupa é o mesmo que você precisaria para pensar com clareza.

É por isso que fazer uma faxina na agenda alivia por um dia e volta na semana seguinte: você diminuiu a chuva, mas as comportas continuam fechadas. A água que já estava lá dentro segue lá, esperando a próxima enxurrada para chegar à borda de novo.

O sintoma que você sente, a cabeça que não para, a irritação à toa, é só a camada de cima. Embaixo dele tem um comportamento que o sustenta: você diz sim a tudo, adia o que dói, aceita mais do que devia. E embaixo desse comportamento tem uma emoção que nunca foi encarada de frente. Sintoma, comportamento, emoção: a dor sempre tem camadas, e a de cima nunca é a mais funda.


A prática3 min

Uma pausa que abre a comporta de verdade

Isto não é “respire fundo”. É um jeito de abrir a comporta um pouco, antes que a água transborde. Leva três minutos, funciona em qualquer lugar, e o único material necessário é você parar de verdade, não fingir que parou enquanto já pensa na próxima tarefa.

  1. Pare com o corpo, não só com a intenção. Levante da cadeira, saia da mesa, vá até a janela ou o corredor. Trinta segundos de deslocamento físico já ajudam o corpo a sair do estado de alerta que a mente estava sustentando.
  2. Solte o ar mais devagar do que ele entrou. Inspire contando até quatro, expire contando até oito. Repita seis vezes, cerca de um minuto e meio. Muita gente sente o corpo baixar a guarda quando o ar sai mais devagar do que entrou.
  3. Nomeie o que está pesando, numa frase só. Em voz baixa ou por dentro: “estou com raiva da reunião de hoje” ou “estou com medo de não dar conta do prazo”. Não precisa resolver nada agora. Só nomear já tira a emoção do modo automático.
  4. Volte com uma pergunta, não com a lista inteira. “O que é urgente de verdade nos próximos trinta minutos?” Normalmente é uma coisa só. O resto pode esperar até você decidir, não até a ansiedade decidir por você.

Um exemplo

No meio da tarde, com o e-mail empilhando e uma reunião chegando, você levanta e vai até a cozinha. Faz as seis respirações enquanto a água do café esquenta. Diz baixinho: “estou com medo de decepcionar o cliente”. Volta para a tela e pergunta o que é urgente até a reunião. Geralmente sobra uma coisa só. As outras dez esperam.

O melhor momento para fazer essa pausa não é quando a água já chegou na borda. É antes: no meio da manhã, depois do almoço, no fim da tarde, mesmo que nada pareça estar pegando fogo ainda. Três minutos, três vezes ao dia, custam menos do que uma hora perdida numa crise de irritação com alguém que você ama. E ao contrário de uma meditação longa, essa pausa cabe em qualquer intervalo, inclusive dentro do banheiro do trabalho.

Se não funcionar

Se o peso continuar do mesmo tamanho. Isso também é informação. Significa que não é só a tarefa de hoje que está empilhada, é sentimento de mais tempo, represado. Vale continuar com a pausa e, junto, dar a esse peso um olhar mais longo do que trinta segundos de janela: um espaço onde dê para investigar de onde ele vem de verdade.


Você não precisa esperar transbordar

Represa boa não é a que nunca enche. É a que abre as comportas aos poucos, antes de transbordar. A sua mente funciona do mesmo jeito.

Você tem permissão para parar antes de aguentar o máximo. Não precisa chegar ao limite para merecer os três minutos. Não precisa provar que dá conta de tudo sem ajuda para só depois, no fim das forças, se permitir respirar.

Abrir a comporta uma vez alivia o dia de hoje. Abrir toda vez que o nível sobe é o que impede que a exaustão vire o seu jeito permanente de viver.

Da próxima vez que sentir a água subindo por baixo do seu dia, pergunte: que comporta eu ainda não abri hoje?

Felipe Lapa

Quem escreve

Felipe Lapa

Escritor, palestrante e instrutor de meditação, mindfulness e autoconhecimento. Há catorze anos, desde 2012, estuda e ensina esse caminho, e já acompanhou mais de quinze mil pessoas em palestras, cursos, retiros e mentorias. É autor de O Estudo da Vida: O Manual que Você Nunca Recebeu.

Entrevistado pela TV Globo, pela CBN e pelos jornais de Pernambuco. Palestras para mais de 40 empresas e instituições.

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