Felipe Lapa

BlogA voz que cobra

Autocobrança: quando, por mais que você faça, nunca parece o suficiente

Meditação guiada · 17 minutos Com a lista pela metade São cerca de 17 minutos. Se puder, dê o play agora, num lugar onde dê para fechar os olhos. Se preferir, leia primeiro: o texto abaixo prepara a prática.

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Por mais que você faça, nunca parece o suficiente. Este texto mostra o que é a autocobrança, de onde ela vem, os sinais de que passou do ponto, como lidar com ela, e traz uma meditação guiada para fazer agora.

Felipe Lapa7 min de leitura

Por mais que você faça, nunca parece o suficiente.

Você entrega o que pediram e já está pensando no que poderia ter ficado melhor. O elogio dura um minuto. A crítica, uma semana. Em casa, arruma uma coisa e já enxerga outras três por fazer. Senta no sofá e vem aquele incômodo, como se descansar fosse algo que você ainda não mereceu.

Esse peso tem nome: autocobrança, a exigência que a gente faz a si e que faz o próprio valor depender do resultado.

Talvez você nem chame isso de problema. Quem vive assim costuma ser a pessoa em quem todo mundo confia, a que resolve, a que dá conta. “Comigo, se é para fazer, é para fazer direito.” É dito com um certo orgulho, e muitas vezes com razão. Por isso demora tanto para perceber quando passou do ponto.

O que é autocobrança

Autocobrança é a exigência que a gente faz a si. Em certa medida, ela ajuda: é o que faz você terminar o que começou e cuidar do que entrega. Ela vira sofrimento quando o seu valor passa a depender do resultado. Se a lista andou, o dia foi bom, e você também. Se a lista ficou pela metade, parece que você também ficou pela metade.

A lista nem precisa estar escrita. Tem a do trabalho, a de casa, a dos filhos, a das contas. Muitas vivem só nos pensamentos, e têm uma característica curiosa: nunca chegam ao fim. Você risca uma coisa e aparecem duas.

Autocobrança saudável e autocobrança excessiva

Ninguém precisa largar o cuidado com o que faz. Fazer bem feito não é o problema. A diferença está em quatro lugares:

  • Onde ela age. O capricho escolhe onde caprichar. A cobrança capricha em tudo, até no que ninguém vai ver.
  • Quando ela termina. O capricho termina: ficou bom, está pronto. A cobrança não termina, porque sempre dá para revisar mais uma vez.
  • O que ela faz com o erro. O capricho aceita o erro como parte do caminho. A cobrança trata o erro como uma prova contra você.
  • O que ela faz com o descanso. O capricho deixa você descansar quando acaba. A cobrança só aceita o descanso depois do que ainda falta, e sempre falta alguma coisa.

Se fazer bem feito fosse só gosto, daria prazer. Quando dá medo, quando não deixa dormir, quando não deixa sentar, já não é só capricho.

Os sinais de autocobrança excessiva

Eles costumam ser pequenos, e é por isso que passam por coisa normal da vida:

  • O domingo à noite já tem gosto de segunda.
  • As férias levam três dias para começar de verdade.
  • O ombro não desce nem quando você está em casa.
  • A paciência está mais curta com quem está perto, por coisas que antes passavam.
  • Você vai à academia três vezes na semana e só pensa nas duas em que faltou.
  • Começa a dieta na segunda e, no primeiro deslize, vem o “já que estraguei, agora tanto faz”.
  • Um domingo parado já parece tempo perdido.

Com o tempo, ela cobra do corpo: um cansaço que o sono não resolve, a pressa que não passa, a noite em que a cabeça quer revisar o dia inteiro.


De onde vem a autocobrança

Quase nunca ela começa na vida adulta. No livro, eu escrevi:

É a nota nove que a criança leva para casa, orgulhosa, e o “e o ponto que faltou?” que vem antes do abraço.

A criança cresce. A nota vira o relatório, a balança, a casa arrumada. Mas a pergunta continua a mesma: e o ponto que faltou?

Isso não é para procurar culpados. Muitas vezes, essa cobrança já protegeu você. Em algum momento, se cobrar funcionou: foi o jeito de receber atenção, de dar conta quando ninguém mais dava, de garantir um lugar. O corpo aprendeu que, fazendo tudo certo, nada de ruim acontece. E essa lição continua valendo hoje, quando muita coisa já mudou.

Ela também não vem só de dentro. Às vezes você sabe que fez, deu o seu melhor, e a pessoa olha e só enxerga o que faltou. Ela nem fala nada, o silêncio já diz tudo. Essa dor é diferente: não é dúvida sobre o que você fez, é a falta de reconhecimento. Muitas vezes as duas se misturam, e o olhar do outro só confirma uma frase que já morava aí dentro.

Por que fazer mais não resolve

Você talvez esteja pensando: já tentei me organizar melhor, já tentei relaxar, já ouvi que preciso me cobrar menos. Não adiantou. Faz sentido, porque quase tudo o que se tenta usa a mesma lógica que criou o problema.

Repare no que acontece logo depois de uma entrega. Vem um alívio que dura pouco: uma hora, uma tarde, às vezes nem isso. E a atenção já está no próximo item, ou no detalhe que podia ter saído melhor. É como uma linha de chegada que anda um pouco para a frente cada vez que você se aproxima. Por isso nenhuma conquista consegue acalmar o que essa régua mede.

Ela não se cala com mais esforço, mais conquista ou mais elogio. E tentar parar de se cobrar na força costuma virar só mais um item na lista: agora você também se cobra por se cobrar.

Como lidar com a autocobrança

O caminho não é fazer menos nem fazer de qualquer jeito. É mudar o que você faz com a cobrança quando ela aparece. Três gestos ajudam, e nenhum pede mais uma tarefa:

  1. Pergunte se aquilo terminou. Quando for revisar mais uma vez, pare um instante: ainda estou melhorando isto, ou estou tentando me livrar de um medo? Se for medo, pode parar por aí.
  2. Repare de quem é a frase. “Eu não dou conta.” “Eu deveria ter feito mais.” “Esperavam mais de mim.” Quando uma dessas aparecer, pergunte de onde ela vem: é o seu olhar com você, ou é o olhar de alguém? Só separar as duas já tira um pouco do peso.
  3. Separe o que foi feito de quem você é. A lista mede o que foi feito. Ela não mede quem você é. Com a lista feita ou pela metade, é o mesmo você, o mesmo coração batendo, o mesmo ar entrando e saindo.

Se a sua autocobrança anda junto com a régua muito alta, vale ler também sobre o peso do perfeccionismo.

Autocobrança e ansiedade

As duas costumam andar juntas. A cobrança mantém a atenção no que falta, e o corpo responde como se houvesse sempre algo por resolver. A ansiedade, por sua vez, faz parecer que só mais controle vai trazer alívio, e a cobrança aumenta. O texto sobre perfeccionismo e ansiedade mostra como uma coisa alimenta a outra.


A prática17 min

Uma prática para fazer agora

Entender ajuda, mas essa cobrança não mora só na cabeça. Ela está no ombro que não desce e na pressa que não passa. Por isso, gravei uma meditação guiada muito especial sobre esse tema. Ela não pede que você resolva nenhuma pendência. Pede que você repare no que acontece quando a lista fica pela metade.

A meditação está no início desta página. Volte lá quando puder parar.

Quando o áudio terminar, fique mais um instante de olhos fechados e deixe esta pergunta com você:

O que dói mais: você achar que não fez o suficiente, ou o outro achar isso de você?

Não precisa responder certo. Fique com a primeira coisa que vier.

Se não funcionar

Se não der para parar por 17 minutos agora, faça só isto: leve a atenção para o ombro, solte o ar devagar e repita uma vez, por dentro: “a lista mede o que foi feito, não quem eu sou”. Depois volte para o que estava fazendo.

Acredite, você não precisa fazer mais para, enfim, ser suficiente, descansar e estar em paz.

Perguntas sobre autocobrança

O que causa a autocobrança?

Muitas vezes, uma lição antiga: a de que o seu valor depende do que você faz. Ela costuma vir de aprender cedo que o valor vinha do resultado, de ter de dar conta muito cedo, ou de terem reconhecido você principalmente por ser quem resolve. Com o tempo, a voz que era de fora passa a falar de dentro.

Autocobrança e perfeccionismo são a mesma coisa?

São parentes, mas não iguais. O perfeccionismo mira o resultado sem falhas. A autocobrança pode existir sem isso, em quem nem busca perfeição e, ainda assim, sente que nunca fez o bastante. Há também uma prática de seis minutos para o perfeccionismo, se esse for o seu caso.

Como parar de se cobrar tanto?

Tentar parar na força costuma virar mais uma cobrança. O que costuma funcionar é perceber a cobrança na hora em que ela aparece, separar a sua voz da voz de alguém e lembrar que o que você fez não é a medida de quem você é. A prática desta página foi feita para isso.

Autocobrança ou auto cobrança: como se escreve?

Autocobrança, tudo junto, sem hífen e sem espaço.

Felipe Lapa

Quem escreve

Felipe Lapa

Escritor, palestrante e instrutor de meditação, mindfulness e autoconhecimento. Medita desde 2012 e dá cursos e palestras desde 2014. Já acompanhou mais de quinze mil pessoas em palestras, cursos e mentorias. É autor de O Estudo da Vida: O Manual que Você Nunca Recebeu.

Entrevistado pela TV Globo, pela CBN e pelos jornais de Pernambuco. Palestras para mais de 40 empresas e instituições.

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