Felipe Lapa

BlogA voz que cobra

Como impor limites nas relações: 4 práticas para quem tem dificuldade de dizer não

Para quem diz sim ao parceiro, à família e aos amigos e depois carrega o peso sozinho. O texto mostra o que existe por baixo do sim automático e traz quatro práticas para treinar o não nas relações pessoais, do não silencioso à frase da verdade.

Felipe Lapa6 min de leitura

Neste artigo 4 partes

Você sente o pedido chegando e a resposta “sim” já sai da sua boca antes mesmo de você pensar. Depois que a pessoa vai embora, vem aquele peso no peito, uma irritação surda ou um cansaço que não passa com sono. Você aceitou fazer algo que não queria, assumiu uma responsabilidade que não é sua ou permitiu que alguém passasse por cima de você outra vez.

É como se a sua vida fosse uma porta sem tranca. Qualquer pessoa entra, mexe nas coisas, deixa bagunça e sai quando quer. Você olha para a porta e sabe que ela deveria ter um fecho, mas parece que a chave sumiu ou que você não tem permissão para girá-la.


Empatia não é desaparecer

A verdade é que a dificuldade de impor limites raramente tem a ver com falta de educação ou excesso de bondade. Talvez você se defina como alguém empático, que gosta de ajudar as pessoas. E é. Só que existe uma diferença enorme entre empatia e autossacrifício. A empatia acolhe o outro sem anular você. O autossacrifício exige que você desapareça para que o outro fique confortável.

Esse padrão acontece porque a gente aprendeu a ler os sinais dos outros antes de aprender a ouvir os próprios. O medo de ser rude ou de causar um conflito é tão grande que preferimos engolir a própria raiva. Só que essa raiva não some: ela fica guardada e, um dia, explode do nada com quem menos merece.


O que existe por baixo do sim automático

Para resolver isso, precisamos olhar para o que está por baixo do comportamento. Na superfície, você vê a dificuldade de dizer não. Mas se descermos pelas camadas, descobrimos que isso é apenas um sintoma.

Atrás do “sim” automático existe um padrão de complacência. Por trás da complacência, mora o medo: medo da rejeição, medo do conflito ou a sensação de que você só tem valor se for útil. E, na raiz de tudo, geralmente há uma ferida antiga. Talvez alguém tenha te ensinado, através de silêncios ou críticas, que discordar era perigoso e que para ser amado era preciso ser invisível.

Quando você diz sim querendo dizer não, a outra pessoa recebe uma versão cansada e ressentida de você, sem saber disso. Não é maldade sua: é um acordo que só um lado conhece. Aprender a colocar limites é, antes de tudo, deixar que as pessoas conheçam quem você é e o que você aguenta.


A prática2 a 20 min

Quatro práticas para treinar o não

Comece pela primeira e vá descendo. Cada uma pede um pouco mais de coragem que a anterior.

1. O não silencioso

Tempo: 2 minutos

  1. Na próxima vez que alguém te pedir algo, não responda na hora.
  2. Use uma frase de escape: “Deixa eu ver minha agenda e te respondo” ou “Preciso pensar nisso”.
  3. Afaste-se da pessoa e pergunte a si mesmo: “Eu quero fazer isso ou estou com medo do que acontece se eu disser não?”.

Exemplo: Sua irmã liga pedindo que você fique com as crianças dela o sábado inteiro. Em vez de dizer “claro”, você diz: “Deixa eu ver como está meu fim de semana e te aviso daqui a pouco”.

Se não funcionar: Se a pessoa pressionar por uma resposta imediata, diga: “Eu realmente preciso de alguns minutos para te dar uma resposta de verdade”. Não ceda à pressa do outro.

2. A frase de limite gentil

Tempo: 5 minutos

  1. Escolha um limite que você precisa impor hoje.
  2. Monte a frase seguindo a lógica: reconhecer o outro + dizer o seu limite concreto + fechar com gentileza.
  3. Entregue a frase sem pedir desculpas excessivas.

Exemplo: “Eu sei que esse almoço é importante para você, mas neste domingo eu preciso ficar em casa. Fico feliz que tenha me chamado”.

Se não funcionar: Se a pessoa tentar te fazer sentir culpado, repita a mesma frase exatamente como disse a primeira vez. Não tente justificar mais do que o necessário: cada justificativa a mais abre uma nova negociação.

3. O preço dos sins

Tempo: 15 minutos

  1. Sente-se num lugar tranquilo e traga à mente as últimas coisas que você fez por obrigação emocional, não por escolha. Cinco já bastam.
  2. Para cada uma, pergunte a si mesmo: “O que eu ganhei?” e “O que eu perdi?”.
  3. No fim, repare no custo total: em tempo, em descanso, em paz.

Exemplo: Ir a um jantar com parentes que só criticam você. Ganho: evitar o climão na família. Perda: quatro horas de descanso e uma noite de ansiedade.

Se não funcionar: Se você sentir muita culpa ao olhar para as perdas, pergunte a si mesmo: “Quem está pagando a conta desse sim?”. A resposta geralmente é o seu descanso ou o seu tempo com quem você realmente ama.

4. A frase da verdade (dita só para você)

Tempo: 20 minutos

  1. Escolha uma relação em que você se anula constantemente.
  2. Feche os olhos, imagine essa pessoa à sua frente e comece, em voz baixa, com a frase: “Eu sempre disse sim para você porque eu tinha medo de que...”.
  3. Complete a frase honestamente, sem filtros. Repita até ela sair inteira, sem pressa.

Exemplo: “Eu sempre disse sim para os seus planos de viagem porque eu tinha medo de que você me achasse chata ou que parasse de se interessar por mim”.

Se não funcionar: Se você travar e não conseguir completar a frase, deixe-a incompleta. Fique um minuto com esse silêncio e perceba que é ali, onde a frase para, que mora o ponto que mais dói.


Uma tranca de cada vez

Essas práticas são como começar a instalar as trancas naquela porta que ficou aberta por tempo demais. No começo, você vai se sentir estranho. Pode até sentir culpa ou medo de ser julgado como egoísta. Lembre-se: quem mais se acostumou com a sua falta de limites é quem mais vai estranhar quando você começar a colocá-los.

Você pode ser, de vez em quando, a pessoa que diz não. Para quem só conheceu o seu sim, isso vai parecer estranho no começo. O preço da sua paz é, às vezes, incomodar alguém que se acostumou com a sua anulação. Você está disposto a pagar esse preço ou vai continuar deixando qualquer um entrar e bagunçar a sua casa?

Felipe Lapa

Quem escreve

Felipe Lapa

Escritor, palestrante e instrutor de meditação, mindfulness e autoconhecimento. Há catorze anos, desde 2012, estuda e ensina esse caminho, e já acompanhou mais de quinze mil pessoas em palestras, cursos, retiros e mentorias. É autor de O Estudo da Vida: O Manual que Você Nunca Recebeu.

Entrevistado pela TV Globo, pela CBN e pelos jornais de Pernambuco. Palestras para mais de 40 empresas e instituições.

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