Felipe Lapa

BlogA cabeça que não desliga

Excesso de pensamento: como sair da cabeça à noite

Para quem deita exausto e a cabeça não desliga, revisando a conversa de três dias atrás. Por que mandar a mente parar aumenta o barulho, o que costuma estar por baixo dele e uma prática de cinco minutos para fazer na cama, de olhos fechados.

Felipe Lapa6 min de leitura

Você deita a cabeça no travesseiro. O corpo está exausto, os olhos pesam, mas aí começa: aquele diálogo que você teve três dias atrás volta com tudo. Você revisa cada palavra, analisa o tom de voz da outra pessoa e, de repente, descobre a frase perfeita que deveria ter dito para encerrar a discussão. Ou então surge aquela preocupação com a reunião de terça-feira, que vira um cenário catastrófico onde tudo dá errado e você perde o emprego.

A cabeça não desliga. Você tenta encontrar o botão e não acha. Tenta pensar em outra coisa, e a mente volta sempre para as mesmas preocupações, os mesmos medos e as mesmas culpas.

Se isso acontece com você, a primeira coisa que preciso dizer é: você não está com defeito. O excesso de pensamentos não é uma falha de caráter nem falta de força de vontade. É a sua mente tentando resolver problemas usando a única ferramenta que ela conhece: o pensamento.

Quando os pensamentos passam a pensar você

Existe uma diferença fundamental entre pensar e ruminar. Pensar é uma função útil. Você analisa um problema, pondera as opções e toma uma decisão. O pensamento tem começo, meio e fim.

A ruminação é diferente. Ela volta sempre para o mesmo trecho. Você não está buscando uma solução, está girando em círculos sobre a dor do problema. É um cansaço mental que uma noite de sono não desfaz, porque enquanto o corpo tenta descansar, a mente continua fazendo hora extra, tentando consertar coisas que já passaram ou antecipar desastres que talvez nunca aconteçam.

O preço disso é alto. A ansiedade sobe, a concentração despenca e você começa a viver a vida através de um filtro de preocupação. Você está jantando com os seus filhos, mas metade da sua mente está no e-mail que enviou para o chefe. Você está de férias, mas passa os dias conferindo se trancou a porta ou se esqueceu algo importante.

O resultado é que você deixa de estar presente na própria vida. A realidade acontece ao seu redor, e você não consegue senti-la de verdade.


A armadilha do “pare de pensar”

Provavelmente você já ouviu conselhos como: “tente relaxar”, “não pense nisso” ou “simplesmente limpe a sua mente”. Se você é como eu, provavelmente sentiu uma vontade imensa de gritar com quem disse isso.

Tentar “parar de pensar” é como tentar empurrar uma bola de praia para baixo da água: quanto mais força você faz, com mais violência ela volta para a superfície. Quando você se proíbe de pensar em algo, a sua mente precisa vigiar se você está pensando naquilo para garantir que você parou. Ou seja: para não pensar no problema, você precisa pensar no problema o tempo todo. À noite, no escuro e sem nada que distraia, isso fica ainda mais forte. É por isso que a gente pensa tanto antes de dormir.


O que está por baixo do barulho

Para lidar com o excesso de pensamento, precisamos entender a arquitetura da coisa. O pensamento repetitivo é apenas o sintoma visível. Ele é a fumaça. Mas onde está o fogo?

Na maioria das vezes, a ruminação é um mecanismo de proteção que se desregulou. A sua mente acredita que, se pensar o suficiente sobre aquele problema, vai finalmente encontrar uma segurança que não existe no mundo de fora.

Por trás do barulho mental, quase sempre existe uma emoção raiz que não foi acolhida. Pode ser um medo profundo de ser rejeitado, uma culpa antiga por algo que você fez, ou a insegurança de não se sentir capaz o suficiente.

Quando a gente não consegue sentir essa emoção no corpo, a mente tenta transformá-la em lógica. Ela cria histórias, cenários e argumentos para tentar “explicar” a dor. O problema é que a dor não se resolve com explicações: ela se resolve sendo sentida e processada.

Se você passa o dia inteiro tentando resolver um conflito emocional através do pensamento, está apenas alimentando a máquina. Está ensinando à sua mente que aquele estado de alerta é a única forma de sobreviver.


A prática5 min

Uma prática para a hora de dormir: a ancoragem no corpo

Para sair do looping mental, você precisa de um gesto concreto que tire a atenção da cabeça e a traga de volta para o corpo. E, como o momento mais difícil costuma ser na cama, esta prática foi pensada para ser feita ali mesmo: deitado, de olhos fechados, com a luz apagada.

O objetivo não é apagar os pensamentos, mas criar um espaço entre você e eles.

Como fazer (leva cerca de 5 minutos)

  1. Nomeie o que está acontecendo: no momento em que perceber que a cabeça voltou a girar, diga para si mesmo, por dentro: “Agora eu estou ruminando.” Nomear o processo tira parte do poder dele.
  2. A respiração mais longa na saída (1 minuto): coloque uma mão sobre a barriga. Inspire pelo nariz contando até 4 e solte devagar contando até 6. Seis ciclos, sentindo a mão subir e descer.
  3. O corpo no colchão (2 minutos): leve a atenção, devagar, para cada ponto onde o corpo toca a cama: os calcanhares, as panturrilhas, o quadril, as costas, os ombros, a cabeça no travesseiro. Em cada ponto, deixe o peso afundar um pouco mais. Repare onde há tensão, na mandíbula, na testa, nos ombros, e solte.
  4. Os sentidos no escuro (2 minutos): sem abrir os olhos, nomeie por dentro três sons que você consegue ouvir (o ventilador, um carro lá fora, a própria respiração), duas sensações na pele (o lençol nos pés, a temperatura do ar no rosto) e uma coisa que você sente por dentro (o peito subindo, o coração batendo mais devagar).

Se não funcionar

O que fazer quando não funcionar

Vai acontecer de você tentar isso e a mente responder: “Que bobagem é essa? O problema continua lá, foca no que importa!”. Quando isso acontecer, não lute contra a voz.

Apenas observe a voz. Diga: “Olha só, minha mente está tentando me puxar de volta”. E volte para o passo 3, o corpo no colchão. A prática não é sobre conseguir silêncio imediato, mas sobre treinar o músculo da atenção. Cada vez que você percebe que divagou e volta para o corpo, a prática está acontecendo. Se as noites assim forem muitas, este guia de meditação para a insônia continua o caminho.


O caminho da liberdade mental

Lidar com o excesso de pensamento não é se tornar uma pessoa que nunca tem preocupações. Isso seria impossível e antinatural. O objetivo é que a preocupação seja uma visita na sua casa, e não a dona dela.

A mudança real acontece quando você para de tentar controlar o conteúdo da mente e começa a observar o mecanismo. Quando percebe que “eu estou tendo um pensamento de medo” é muito diferente de “estou com medo”. Essa pequena distinção muda tudo: ela tira você do meio do redemoinho e coloca você na margem, onde dá para respirar.

Lembre-se de que a mente é como um músculo. Se você passou anos treinando para ruminar, não vai desaprender isso em dois dias. Mas, com gestos simples de retorno ao presente, você começa a avisar ao corpo que está seguro agora.

O silêncio não é a ausência de pensamentos. O silêncio é a capacidade de observar o barulho sem ser arrastado por ele.

Felipe Lapa

Quem escreve

Felipe Lapa

Escritor, palestrante e instrutor de meditação, mindfulness e autoconhecimento. Há catorze anos, desde 2012, estuda e ensina esse caminho, e já acompanhou mais de quinze mil pessoas em palestras, cursos, retiros e mentorias. É autor de O Estudo da Vida: O Manual que Você Nunca Recebeu.

Entrevistado pela TV Globo, pela CBN e pelos jornais de Pernambuco. Palestras para mais de 40 empresas e instituições.

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