Felipe Lapa

BlogA cabeça que não desliga

Pensamentos desnecessários: como sair da conversa que não acaba

Para quem termina uma conversa difícil e continua discutindo com a pessoa na cabeça, horas ou dias depois. Por que a mente reencena, o que ela está tentando resolver, e uma prática de cinco minutos para sair do tribunal sem brigar com o pensamento.

Felipe Lapa7 min de leitura

Você termina uma conversa difícil e, mesmo depois que a pessoa vai embora, ela continua ali, dentro da sua cabeça. Você repete as frases que ela disse, cria as respostas que não deu e começa a montar cenários para a próxima vez que se encontrarem. O corpo está na sala, mas a mente está num tribunal onde você é, ao mesmo tempo, o réu, o promotor e o juiz. Esse giro não resolve o problema, não muda a pessoa e não traz paz. Só consome a sua energia.

Quase todo mundo conhece esse tribunal. A gente acredita que está pensando para resolver a situação, mas na verdade está reencenando a mesma cena, com pequenas variações, como um rádio preso na mesma faixa. E a pessoa que disse a frase talvez já nem lembre dela, enquanto você ainda está na terceira sessão de julgamento.


O tribunal que nunca encerra a sessão

Repare nos três papéis. O réu revisa o que você disse e o que deveria ter dito: “por que eu fiquei quieto?”, “eu fui grosso demais”. O promotor acusa o outro e aumenta a cena a cada volta: “quem ele pensa que é?”. O juiz dá a sentença, e ela quase sempre é definitiva: “ele é assim mesmo”, “eu sou sempre assim”.

O julgamento não termina porque nenhuma prova nova entra na sala. A conversa já aconteceu. Tudo o que a mente tem é a mesma gravação, e ela a toca de novo esperando um final diferente.

Enquanto isso, o corpo participa de cada sessão. O peito aperta, a mandíbula trava, a respiração fica curta, como se a conversa estivesse acontecendo agora. Para o corpo, a cena ensaiada pesa quase como a de verdade. É por isso que dá para terminar a noite exausto sem ter saído do sofá.

O fato e a história

Boa parte do que move o tribunal são pensamentos desnecessários: as histórias que a gente cria em cima dos fatos. O fato é: a pessoa disse uma frase atravessada e saiu. A história é: “ela me despreza”, “todo mundo viu”, “eu nunca sei me defender”. O fato é um só, mas a história se multiplica, e é ela que gera a ansiedade. A gente sofre pela história como se ela estivesse acontecendo agora, e isso nos cega para o que de fato aconteceu.

Imagine um pai com o filho pequeno na calçada. Um caminhão enorme passa bem na frente deles. A criança olha para aquele veículo e exclama: “caminhão grande!”. Os olhos dela brilham. Ela está vendo a cor, o tamanho, o barulho da máquina. O pai, porém, pode estar pensando que aquele caminhão está atrapalhando o caminho ou que ele tem algo mais importante para fazer. Enquanto o pai briga com o “estorvo”, a criança aproveita o momento. A diferença é que a criança não cria história sobre o caminhão: ela só vê o caminhão.


O que a mente está tentando resolver

O tribunal parece inútil, mas ele tem uma intenção. Quando a mente reencena uma conversa, quase sempre está tentando fazer uma destas coisas: se preparar para a próxima vez, entender o que aconteceu, ou recuperar um lugar que você sentiu perder ali. Em algum momento da vida, ensaiar foi o jeito de se proteger. Por isso ela insiste.

E muitas vezes o que volta não é a frase do outro. É o que ficou sem ser dito. Desde cedo a gente aprende a se comportar para ser aceito e para evitar conflito: a voz dos pais, a expectativa dos outros, as regras do trabalho. É por isso que tanta gente diz sim por fora enquanto grita não por dentro. O tribunal, então, é o lugar onde esse não engolido finalmente fala, só que tarde demais e para ninguém.

Essa diferença entre responder com clareza e reagir no automático tem muito mais por trás, e eu escrevi sobre ela em ação e reação. Aqui, o que interessa é uma coisa só: como sair da sala quando o julgamento recomeça.

Por que brigar com o pensamento não fecha o tribunal

“Eu já tentei parar de pensar nisso, mas é mais forte que eu.” Se essa é a sua frase, ela tem um motivo. Quando você tenta expulsar um pensamento, dá ainda mais atenção a ele. É como tentar apagar um incêndio com gasolina. A saída não é silenciar a mente à força, mas mudar a sua relação com o que aparece nela.

Você não consegue impedir que a frase do outro volte. Mas pode perceber que ela voltou, e não entrar de novo na sessão. Você não é os seus pensamentos: é quem percebe que está pensando. Quando isso fica claro, a gravação começa a perder força, porque deixa de ser uma verdade absoluta e passa a ser apenas um evento na sua cabeça.


A prática5 min

Prática: sair do tribunal

Para começar hoje, você só precisa de cinco minutos. O objetivo não é “limpar a mente”, é observar como ela monta o julgamento, sem participar dele.

  1. A pausa (2 minutos). Sente-se com as costas retas, pés no chão, e feche os olhos. Não tente relaxar à força. Só note que você está sentado. Sinta o peso do corpo na cadeira e a temperatura do ar entrando pelas narinas. Se a mente fugir, traga de volta para a sensação física.
  2. Dar nome ao papel (3 minutos). Quando a conversa voltar, não continue a discussão. Dê um nome simples ao que a mente está fazendo: “ensaiando”, “acusando”, “me defendendo”, “julgando”. Depois volte para o peso do corpo na cadeira.
  3. Deixar passar. Imagine que cada frase é uma nuvem atravessando o céu. Você não tenta segurar a nuvem nem empurrá-la. Só nota que ela passou.

Um exemplo

Você está sentado e a frase do colega volta: “você sempre deixa tudo para a última hora”. A mente já começa a montar a resposta. Você diz por dentro: “me defendendo”, e volta para o corpo. A frase volta de novo, agora com a cara que ele fez. “Acusando.” Volta para o corpo. Na terceira vez, você percebe que ela chegou mais fraca.

Se não funcionar

É bem provável que, em algum momento, pareça que você “não consegue”, ou que a mente esteja agitada demais. Quando isso acontecer, não brigue com a agitação. Dê nome a ela também: “lutando”. Perceba que até o esforço para calar a mente é mais um pensamento. O sucesso do exercício não é ficar em silêncio. É perceber que você entrou no tribunal, e sair mais uma vez.


Quando a conversa precisa acontecer de verdade

Às vezes, a mesma conversa volta por dias. Isso também é informação. Pode ser sinal de que existe algo a ser dito para a pessoa, fora da sua cabeça, com calma e clareza. Observar o tribunal não significa aceitar tudo ou ficar quieto diante de uma injustiça. Pelo contrário: quem se acalma antes consegue colocar limites muito mais firmes do que quem só explode ou se cala.

A estabilidade não chega da noite para o dia. Não se trata de alcançar uma paz em que nada te abala, mas de diminuir o tempo que você leva para voltar ao centro depois de ser sacudido. Se você passava três dias remoendo um comentário e agora passa uma tarde, algo mudou. Se a tarde vira dez minutos, mudou mais.

Comece pequeno. Escolha um momento do seu dia, como o tempo de lavar a louça, para ser apenas quem observa. Note os pensamentos que chegam e deixe que passem. Só isso.

Enquanto ninguém olha para o tribunal, ele continua dando sentenças por você, e o curioso é que ele faz isso com boa intenção: aquilo tudo já foi solução um dia. O caminho começa quando você para de brigar com o ruído e passa a ouvir o que ele está tentando te dizer sobre você.

Felipe Lapa

Quem escreve

Felipe Lapa

Escritor, palestrante e instrutor de meditação, mindfulness e autoconhecimento. Há catorze anos, desde 2012, estuda e ensina esse caminho, e já acompanhou mais de quinze mil pessoas em palestras, cursos, retiros e mentorias. É autor de O Estudo da Vida: O Manual que Você Nunca Recebeu.

Entrevistado pela TV Globo, pela CBN e pelos jornais de Pernambuco. Palestras para mais de 40 empresas e instituições.

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