Felipe Lapa

BlogAs noites em claro

Por que você pensa tanto antes de dormir (e como isso vira insônia)

Para quem apaga a luz e vê começar um cinema interno de preocupações: por que a mente liga justo quando o mundo silencia, o que costuma estar por baixo e dois gestos para hoje à noite, um antes de deitar e outro já na cama.

Felipe Lapa7 min de leitura

Neste artigo 5 partes

Você apaga a luz, deita, fecha os olhos. E é como se um cinema interno começasse a funcionar. Pensamentos, preocupações, cenários, listas, arrependimentos: tudo ao mesmo tempo, numa sessão que você não pediu para assistir.

O dia inteiro você funcionou no piloto automático: reuniões, tarefas, mensagens, trânsito. Não sobrou um minuto de silêncio. Aí a casa apaga as luzes, o mundo finalmente para, e a sua mente escolhe justamente essa hora para ligar o projetor.

Por que isso acontece? E por que, se nada mudar, isso pode virar insônia?

O silêncio assusta

A verdade é que não é a noite que traz os pensamentos. Eles estavam aí o dia inteiro. Acontece que, durante o dia, existe distração suficiente para você não os ouvir: trabalho, conversas, telas, barulho de gente.

Quando você deita e o mundo exterior silencia, o mundo interior grita. O que foi empurrado para depois o dia todo agora exige atenção. A sessão começa porque, pela primeira vez em muitas horas, o projetor encontrou uma tela vazia e uma plateia parada.

Essa enxurrada de pensamentos noturnos não é defeito. É a mente processando o que não coube no dia. O filme que passa às onze da noite é feito das cenas que você não teve tempo de ver enquanto o sol estava alto.

O ciclo da insônia

O problema é que pensar demais na hora de dormir gera ansiedade. E a ansiedade põe o corpo em alerta: o coração acelera, os músculos ficam prontos, os sentidos ligam. E corpo em alerta não dorme, porque o alerta existe justamente para impedir o sono. Aí não dormir gera mais ansiedade, agora com um personagem novo no filme: “preciso dormir, amanhã vou estar destruído”. O ciclo se alimenta sozinho.

Com o tempo, ele pode virar crônico. A cama, que deveria ser associada a descanso, passa a ser associada a preocupação. O cérebro, em vez de preparar o sono, prepara a vigília. Você deita e o corpo já conhece o roteiro. É o padrão que volta, noite após noite.

Chá, banho morno, celular fora do quarto: provavelmente você já tentou alguma dessas. E às vezes ajuda, sim. Mas repare no que essas tentativas têm em comum: todas arrumam a sala. Nenhuma desliga o projetor. São medidas de fora para dentro, e o filme passa de dentro para fora.


O que está por baixo da insônia

Na maioria dos casos, a insônia não é o problema real. É o sintoma. No trabalho com as 5 Camadas da Dor, o não conseguir dormir é a camada de cima, a mais visível. Por baixo dela costuma morar outra coisa, mais antiga e mais quieta.

Essa história aparece com uma teimosia impressionante, sempre com outras palavras e sempre igual. O filme muda de enredo, a estrutura se repete. Por baixo do “não consigo desligar a cabeça”, quase sempre existe uma destas raízes:

  • Necessidade de controle: você não consegue largar o dia porque largar parece perigoso. Enquanto revisa tudo, tem a sensação de estar cuidando de tudo.
  • Ansiedade do futuro: a mente ensaia o amanhã tentando se proteger dele. Cada cenário imaginado parece preparação, mas é o medo passando o mesmo trailer de novo.
  • Culpa e arrependimento: a sessão da noite reprisa o que você disse, o que não disse, o que devia ter feito diferente. Um julgamento com hora marcada.

É por isso que a frase mais honesta sobre esse assunto é também a mais simples: a sua mente não desliga à noite porque tem coisas a dizer. E durante o dia ninguém dá espaço para escutar.


A prática10 min

O que fazer hoje à noite

A raiz se trabalha com calma, ao longo do tempo. Mas hoje à noite você precisa dormir. Então vão aqui dois gestos completos, na ordem em que se usam: um antes de deitar, outro já na cama.

1. A sessão antecipada: ver o filme antes da cama

Se o projetor vai ligar de qualquer jeito, deixe que ele ligue mais cedo, com a luz acesa e você no comando. Meia hora antes de deitar, ou na hora que der, desde que seja fora da cama:

  1. Sente em qualquer canto, sem tela, por cinco a dez minutos, e deixe as cenas virem. Preocupações, tarefas, frases soltas, o que você fez e ficou remoendo. Não organize, não resolva.
  2. Dê a cada cena o nome do gênero dela, em voz baixa: “isso é controle”, “isso é futuro”, “isso é culpa”. São as três raízes que você viu acima. Se não couber em nenhuma, diga só “isso é cena”.
  3. Quando as cenas começarem a se repetir, encerre a sessão. Diga, em voz baixa mesmo: “a sessão de hoje acabou, o resto espera até amanhã”.

Um exemplo

Uma sessão de verdade se parece com isto, e não com uma lista arrumada: o boleto que vence sexta (“controle”); “acho que falei demais na reunião, falei demais?” (“culpa”); o dentista que você adia faz três semanas (“controle”); “e se o projeto não der certo?” (“futuro”); comprar café (“cena”). Bagunçado, repetido, meio bobo. É exatamente esse o material que o projetor ia passar às duas da manhã. Visto antes, com nome, ele perde a força da estreia.

Se não funcionar

Quando a sessão apertar o peito: se as cenas vierem cada vez mais rápido e a aflição crescer, encerre no meio. Diga em voz baixa “isso espera até amanhã” e leve a atenção para os pés no chão por alguns segundos. O objetivo não é resolver nada hoje. É só tirar o filme do horário da cama.

2. A respiração da vela: o freio do corpo

Já deitado, de luz apagada:

  1. Inspire pelo nariz contando até 4.
  2. Solte pela boca, bem devagar, como quem sopra uma vela sem querer apagar. Deixe o sopro durar o máximo que for confortável, sem forçar.
  3. Deixe a próxima entrada de ar vir sozinha, sem segurar.
  4. Repita oito vezes. Leva uns dois minutos.

A conta importa menos do que o sopro. Muita gente sente o corpo desacelerar quando o ar sai mais devagar do que entrou: o mesmo corpo que a ansiedade acelerou vai encontrando o caminho de volta.

Se não funcionar

Se na primeira rodada a agitação não baixar, não desista no minuto dois. Respire normal por alguns instantes e faça mais uma ou duas rodadas. E se perder a conta, ótimo sinal: recomece do um. Perder a conta significa que a atenção saiu do filme, e era isso que a gente queria.

Duas coisas ajudam como apoio, sem precisarem virar projeto: baixar o ritmo da casa uns 30 minutos antes, menos tela, menos luz, e, se a mente continuar acesa na cama, levar a atenção ao corpo, dos pés à cabeça, como no guia prático de meditação para a insônia.

E quando um pensamento entrar mesmo assim, não brigue com ele. Ninguém apaga um filme discutindo com a tela: quanto mais você grita “para de pensar”, mais sessão você compra. Deixe a cena passar sem entrar nela. Dá para estar na sala sem assistir.


A sessão de amanhã

Dormir bem não é luxo. É necessidade. Quando o sono volta, volta muita coisa junto: o humor, a concentração, a paciência com quem você ama. Se a insônia é frequente na sua vida, não normalize: é o corpo pedindo atenção. E há casos em que esse pedido precisa também de um médico ou de um psicólogo por perto. Este texto não substitui esse cuidado.

Hoje à noite, o cinema provavelmente vai ligar de novo. Tudo bem. Ele levou anos aprendendo o horário dessa sessão e não vai desaprender numa noite, e isso não é falha sua. Mas repare numa coisa quando as primeiras cenas subirem na tela: o filme é seu. Feito das suas horas, dos seus medos, do que ficou sem espaço no seu dia. E quem é dono do filme não precisa vencer a sessão. Precisa dar a essas cenas um horário melhor: de dia, de olhos abertos, com atenção de verdade. A sala esvazia na medida em que o dia escuta.

Felipe Lapa

Quem escreve

Felipe Lapa

Escritor, palestrante e instrutor de meditação, mindfulness e autoconhecimento. Há catorze anos, desde 2012, estuda e ensina esse caminho, e já acompanhou mais de quinze mil pessoas em palestras, cursos, retiros e mentorias. É autor de O Estudo da Vida: O Manual que Você Nunca Recebeu.

Entrevistado pela TV Globo, pela CBN e pelos jornais de Pernambuco. Palestras para mais de 40 empresas e instituições.

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