Felipe Lapa

BlogTenho tudo e falta algo

Autorresponsabilidade: o poder de assumir as rédeas da sua vida

Para quem se pega dizendo “não tive escolha” mais vezes do que gostaria. A diferença entre culpa e autorresponsabilidade e um exercício de sete dias para flagrar, no ato, o momento em que você solta a rédea da própria vida.

Felipe Lapa6 min de leitura

Neste artigo 5 partes

Se alguém perguntasse agora, na hora, quem segura as rédeas da sua vida, a resposta ia sair rápido: eu, é claro. Mas espere um pouco antes de fechar essa resposta. Nos últimos sete dias, quantas vezes você disse alguma versão de “não tive escolha”, “a culpa foi dele” ou “a vida que me colocou nessa”? Porque tem uma diferença enorme entre dizer que segura as rédeas e ter as mãos de verdade fechadas nelas.

Autorresponsabilidade não é frase bonita para postar em rede social. É um dos princípios mais difíceis e mais transformadores que existem, e boa parte de quem diz que pratica está, na hora de agir, com as mãos soltas, deixando o cavalo escolher o caminho sozinho e culpando a estrada quando as coisas dão errado.


O que é autorresponsabilidade

Autorresponsabilidade é assumir que você é o principal responsável pelos resultados da sua vida: as suas escolhas, as suas reações, as suas relações, os seus hábitos. Isso não quer dizer que tudo o que acontece com você é culpa sua. Quer dizer que a forma como você responde ao que acontece é sempre, sempre, sua.

E isso nunca significa que quem sofreu uma injustiça, uma perda ou uma violência tenha culpa por ela. A responsabilidade começa no que vem depois, e muitas vezes o primeiro passo responsável é justamente pedir ajuda.

Isso é libertador e assustador ao mesmo tempo. Libertador porque devolve o poder para a sua mão. Assustador porque tira toda desculpa pronta.

A tentação de culpar

É muito mais confortável culpar. Culpar os pais, o chefe, o parceiro, o trânsito, a infância. E, olhe, muitas dessas coisas realmente pesam na sua vida. Algumas de um jeito profundo.

Só que, enquanto você culpa, você solta a rédea e entrega a direção para a mão de outra pessoa. Você está dizendo, sem perceber: a minha vida é assim por causa dele, então é ele que precisa mudar para a minha vida melhorar. E aí você fica esperando. Esperando o outro mudar, esperando o chefe perceber, esperando o parceiro virar outra pessoa.

Repare como isso soa familiar: “se o meu salário fosse melhor, eu não estaria endividado”, ou “se ele me entendesse direito, eu não explodiria toda vez”. A frase parece verdadeira e, sendo sincero, pode até ter um pedaço de verdade dentro dela. O problema não é reconhecer que o outro pesa. É parar bem ali, entregar a rédea inteira e esperar que a vida mude sozinha enquanto você assiste do lado de fora.

“Mas teve coisa que eu não escolhi”, você pode dizer. “Não escolhi a infância que tive, não escolhi certas coisas que aconteceram comigo.” E tem razão: tem coisa que a gente não escolhe mesmo. Só que autorresponsabilidade não pergunta quem colocou a rédea na sua mão. Pergunta o que você faz com ela agora que está segurando.

Autorresponsabilidade é resgatar esse poder. É trocar “isso aconteceu comigo, e a culpa é de fulano” por “isso aconteceu comigo. E agora, o que eu vou fazer a respeito?”. A pergunta muda tudo.


Autorresponsabilidade não é culpa

Só que aqui mora uma confusão perigosa, e vale separar bem as duas coisas. Culpa é olhar para o passado e se condenar. Autorresponsabilidade é olhar para o presente e se comprometer.

Ninguém tem culpa por ter tido uma infância difícil. Mas pode buscar cuidado para ela agora. Ninguém tem culpa por ter aprendido, sem querer, um jeito de reagir que machuca hoje. Mas pode trabalhar para mudar esse jeito.

Uma trava, a outra dá o primeiro passo. E é só quando você separa as duas que a autorresponsabilidade para de parecer um peso e começa a parecer o que ela é de verdade: a saída que depende de você.

Isso aparece em coisa pequena, do dia a dia. É parar de reclamar do trânsito todo santo dia e sair quinze minutos mais cedo. É dizer “eu escolhi ficar até tarde ontem” em vez de “não tive opção”. É perceber que, quando você fala “não tenho tempo para isso”, na maioria das vezes está dizendo “isso não é prioridade para mim agora”.

No trabalho, é trocar “a equipe que fez errado” por “o que eu poderia ter combinado diferente com eles”. Numa relação que já dura anos e ainda bate na mesma pedra, é trocar “ele nunca muda” por “o que eu ainda faço que alimenta essa briga”. Nenhuma das duas perguntas é confortável. As duas movem alguma coisa que “a culpa é dele” nunca vai mover.


A prática5 min

O exercício de uma semana

Autorresponsabilidade não se aprende lendo sobre ela. Aprende-se flagrando, ao vivo, o momento em que você está prestes a soltar a rédea. Este exercício dura sete dias e pede cinco minutos por dia, no fim do dia.

Passo 1. Durante sete dias, toda vez que perceber que culpou alguém ou alguma coisa, em voz alta ou só na cabeça, dê nome ao que aconteceu, por dentro, numa frase rápida. Não precisa parar o que estava fazendo. “Culpei o trânsito.” “Culpei meu parceiro pelo meu cansaço.” “Culpei o chefe pelo prazo apertado.” Não se julgue. Só repare.

Passo 2. No fim de cada dia, separe cinco minutos. Sente-se, feche os olhos e lembre das vezes em que você culpou alguém naquele dia. Para cada uma, complete em voz alta: “o que eu posso fazer a respeito é…”.

Passo 3. No sétimo dia, repasse a semana inteira de uma vez. Você vai ver um padrão: as mesmas duas ou três pessoas, ou as mesmas duas ou três situações, voltando muitas vezes. É ali que está o seu próximo trabalho, não em ficar mais atento à vida em geral.

Um exemplo

“Culpei o trânsito por chegar atrasado de novo” vira “o que eu posso fazer a respeito é sair quinze minutos mais cedo, ou avisar antes que posso me atrasar”. “Culpei meu parceiro por eu estar de mau humor” vira “o que eu posso fazer a respeito é falar o que me incomodou, em vez de esperar que ele adivinhe”.

Se não funcionar

Se, no meio da semana, você passar um dia inteiro sem flagrar nada, isso não quer dizer que já segura a rédea o tempo todo. Quer dizer, quase sempre, que ainda não está pegando o momento no ato. Ponha três alarmes no celular, de manhã, de tarde e de noite, só para perguntar: até agora, o que eu culpei hoje?

E quando aparecer uma situação em que, sinceramente, não havia nada que você pudesse ter feito diferente (isso existe, e faz parte da vida), a frase muda de forma, mas continua sua: “eu não escolhi isso, mas escolho o que eu faço com isso a partir de agora”.


Quem segura as rédeas agora

Ninguém entrega as rédeas prontas na sua mão. Você as pega no dia em que decide segurar, mesmo com a mão tremendo, mesmo sem saber ainda para que lado puxar.

Autorresponsabilidade não é conquista de um dia só. É prática diária: toda vez que aparecer a chance de culpar, justificar ou esperar que o outro mude primeiro, vai aparecer também a chance de perguntar outra coisa.

Hoje, quando alguma coisa der errado, e vai dar, porque a vida é assim, a pergunta que interessa não é quem tem culpa. É: o que essa situação está me pedindo para fazer agora? Essa pergunta, só você pode responder. As rédeas, no fim, sempre estiveram na sua mão. A questão é só se você está segurando ou deixando soltas.

Felipe Lapa

Quem escreve

Felipe Lapa

Escritor, palestrante e instrutor de meditação, mindfulness e autoconhecimento. Há catorze anos, desde 2012, estuda e ensina esse caminho, e já acompanhou mais de quinze mil pessoas em palestras, cursos, retiros e mentorias. É autor de O Estudo da Vida: O Manual que Você Nunca Recebeu.

Entrevistado pela TV Globo, pela CBN e pelos jornais de Pernambuco. Palestras para mais de 40 empresas e instituições.

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