Você chega em casa, fecha a porta e o silêncio bate no rosto como um soco. De repente, aquela sensação de vazio começa a subir pelo peito: um aperto que não tem nome, mas que você conhece bem. Para fugir disso, você liga a televisão, abre as redes sociais ou manda mensagem para qualquer pessoa, só para sentir que ainda existe algum vínculo com o mundo. O problema é que, mesmo cercado de gente no trabalho ou em festas, aquele vazio continua ali, esperando você ficar sozinho para voltar a gritar.
Muitos chamam isso de solidão. Mas a verdade é que a maioria de nós não tem medo de estar sozinho. Nós temos medo do que acontece dentro da nossa cabeça quando o barulho externo para. Temos medo de quem somos quando não há ninguém para validar, distrair ou preencher os espaços.
Solidão não é estar sozinho
Existe uma distinção fundamental aqui que muda completamente a forma como você lida com as suas noites em claro ou com os seus domingos vazios. Solidão não é a mesma coisa que estar sozinho.
A solidão é um estado de carência. É a sensação de que falta algo, de que existe um buraco que só pode ser preenchido por outra pessoa. Quando você está na solidão, o outro é visto como um remédio: alguém que vem para tirar você daquela dor. O problema é que esse remédio tem efeito curto. Você sai de um encontro e, dez minutos depois, a sensação de vazio volta, às vezes até mais forte.
Estar sozinho, por outro lado, pode ser outra coisa completamente. É quando a sua própria companhia deixa de ser um peso e passa a ser um lugar onde dá para ficar. Aí você não está fugindo de si mesmo: você está ali, com você, e isso basta pelo tempo que durar.
O que separa esses dois estados não é a quantidade de pessoas ao seu redor, mas a qualidade da sua atenção. A solidão acontece quando você luta contra o silêncio. A paz de estar só nasce quando você aprende a observar esse silêncio sem tentar mudá-lo.
O barulho que serve de escudo
A maioria de nós passou a vida inteira construindo escudos para não ter que encarar o próprio vazio. O trabalho excessivo, as compras por impulso, a dependência da aprovação alheia: tudo isso são formas de ruído.
Enquanto a mente está ocupada resolvendo problemas, planejando o futuro ou remoendo o passado, ela não precisa sentir o agora. E o agora, para quem carrega dores antigas, costuma ser desconfortável. Quando você finalmente para, todos aqueles pensamentos que foram empurrados para baixo do tapete começam a subir: as inseguranças, os arrependimentos, a sensação de que você não é suficiente.
Quando o silêncio parece insuportável
“Tudo bem, entendi a diferença. Mas quando eu tento ficar em silêncio, a minha ansiedade dispara. Começo a pensar em tudo que deu errado na vida e sinto que vou sufocar. Meditar ou ‘estar presente’ só me faz sentir mais a dor.” Se é isso que você está pensando, faz sentido.
Isso costuma acontecer porque a gente tenta a coisa errada: tenta limpar a mente.
Atenção plena não é sobre esvaziar a cabeça de pensamentos ou forçar um estado de paz. Isso é impossível para quem tem uma mente agitada. A prática consiste em mudar a sua relação com o que aparece. Em vez de lutar contra a ansiedade, você aprende a observá-la como se fosse um fenômeno climático: “Olha, agora está chovendo angústia aqui dentro”.
Quando você luta contra a solidão, você dá força a ela. Quando você apenas observa que está se sentindo solitário, sem julgar e sem tentar fugir, o sentimento começa a perder o controle sobre você. Você deixa de ser a dor para se tornar aquele que percebe a dor.
Práticas concretas para a hora do vazio
Para sair da carência e chegar a ficar bem na sua própria companhia, o que ajuda é treinar a presença no meio do seu dia a dia, do jeito que ele é.
1. Dar nome à emoção
O primeiro passo é parar de reagir no automático ao vazio. No momento em que vier a vontade de pegar o celular ou ligar para alguém só para não ficar sozinho, faça uma pausa.
Tempo: 3 minutos.
- Feche os olhos e diga por dentro: “eu estou me sentindo solitário agora”.
- Não tente resolver. Não procure a causa. Só dê o nome.
Um exemplo
Em vez de pensar “eu sou um fracasso porque não tenho ninguém”, pense “neste momento, há uma sensação de solidão no meu peito”.
Se não funcionar
Se a angústia vier forte demais: abra os olhos e descreva, por dentro, três objetos que você está vendo ao seu redor. Isso traz você de volta para o concreto. Depois, se quiser, tente nomear a emoção de novo.
2. A âncora da respiração
A solidão vive no passado (a saudade) ou no futuro (o medo do abandono). A respiração acontece sempre agora.
Tempo: 5 a 10 minutos.
- Sente-se com as costas retas.
- Não tente mudar o ritmo do ar. Só observe como ele entra e sai pelas narinas.
- Quando vier um pensamento como “eu não aguento mais esse silêncio”, note que ele veio e, com gentileza, volte a atenção para o ar.
Um exemplo
Você percebe que começou a pensar na briga que teve com o seu parceiro há três dias. Você nota: “pensamento de passado”. E volta para a sensação do ar frio entrando pelo nariz.
Se não funcionar
Se a mente estiver rápida demais: conte as respirações de 1 a 4. Inspire (1), expire (2)... chegou no 4, recomece. Isso dá à mente um osso para roer enquanto o corpo relaxa.
3. Onde o vazio pesa no corpo
A solidão não é só um pensamento: ela tem um lugar no corpo.
Tempo: 10 minutos.
- Deite-se e feche os olhos.
- Leve a atenção para os pés e suba devagar até o alto da cabeça.
- Em cada região, pergunte: “o que eu estou sentindo aqui?”. Não tente mudar nada. Só localize onde a solidão pesa mais.
Um exemplo
Você percebe um aperto no centro do peito ou um nó na garganta. Observe esse peso sem tentar expulsá-lo. Diga para si mesmo: “eu vejo você”.
Se não funcionar
Se vier vontade de chorar: deixe as lágrimas virem, no seu ritmo. Uma mão no peito e os pés sentindo o chão ajudam a atravessar a onda. E, se a dor estiver grande demais para carregar sozinho, conversar com alguém de confiança ou com um profissional é um gesto de cuidado consigo.
A relação mais longa da sua vida
Você vai passar cada segundo da sua existência na companhia de si mesmo. Desde o primeiro suspiro até o último, você é a única pessoa que nunca te abandona.
Se essa relação for baseada em fuga, medo ou desprezo, você será um estrangeiro dentro da própria pele, não importa quantos amigos tenha no celular ou quantas pessoas durmam ao seu lado na cama.
Aprender a estar bem sozinho não significa que as outras pessoas deixaram de ser importantes. Pelo contrário. Quando você aprende a ficar bem sozinho, suas relações melhoram, porque você para de usar o outro como tampão para a sua própria dor. Você deixa de buscar no parceiro ou nos filhos aquilo que só pode ser encontrado na sua própria presença.
A solidão é uma professora rigorosa, mas generosa. Ela te obriga a olhar para as feridas que você passou anos tentando esconder com barulho. E é exatamente nesse lugar, onde não há mais para onde fugir, que começa o caminho de volta para você.
Aquilo que você não estuda, você repete. Se você não estudar a sua solidão, passará a vida inteira repetindo o ciclo de buscar pessoas para preencher um vazio que é, na verdade, um convite para você voltar para casa.
