Felipe Lapa

BlogComeçar a meditar

Meditação e depressão: o que a prática faz, e o que ela não faz

Para quem vive a depressão como uma ausência de cor, a vida atrás de um vidro grosso. O que os estudos mostram sobre atenção plena e depressão, quando procurar ajuda já, e uma prática curta com os pés no chão, sem prometer o que não pode.

Felipe Lapa7 min de leitura

Você acorda e o dia já começa pesado. Não é necessariamente uma tristeza profunda, mas uma ausência de cor. É como se houvesse um vidro grosso entre você e o resto do mundo: você vê as pessoas rindo, vê a vida acontecendo, mas não consegue tocar em nada disso. O cansaço que você sente não passa com oito horas de sono. É um peso no peito, uma lentidão no pensamento e a sensação constante de que existe algo errado, sem que você saiba nomear.

Se você vive isso, a primeira coisa que precisa saber é: não é falta de força de vontade. Não é preguiça, nem ingratidão pelo que você tem. A depressão não mexe só com o humor. Ela muda o jeito como você percebe a si mesmo, os outros e o dia que tem pela frente.

A armadilha do “eu sou assim”

Muita gente passa anos tentando resolver esse estado na base do argumento. Tenta se convencer de que tem motivos para estar bem, faz listas de coisas boas, se força a sair de casa. E quando nada disso funciona, a culpa aumenta. Só que a depressão não costuma ceder a argumentos, por melhores que eles sejam.

O caminho certo passa por ajuda médica e psicológica, e isso é fundamental. Também é verdade que, para muita gente, o primeiro remédio ou a primeira terapia não bastam, e é preciso ajustar até encontrar o que serve. Se isso aconteceu com você, não quer dizer que você não tem jeito. Quer dizer que o tratamento ainda está sendo afinado, como acontece com muita gente.

Quando procurar ajuda agora

Se você tem pensado em morrer, em se machucar ou sente que não aguenta mais, procure ajuda hoje. Você pode ligar para o 188, do CVV, de graça e a qualquer hora, ou conversar pelo chat em cvv.org.br. Numa emergência, o SAMU atende no 192. Falar com alguém é um gesto de cuidado, não de fraqueza.

E se a tristeza, o cansaço ou a falta de vontade já duram mais de duas semanas e atrapalham o sono, a comida, o trabalho ou as relações, vale procurar um médico ou um psicólogo. Pelo SUS, a porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde do seu bairro. A meditação pode andar junto com o tratamento, nunca no lugar dele.


O alarme que fica ligado

Para entender um pedaço do que acontece, ajuda olhar para uma parte do cérebro chamada amígdala. Imagine a amígdala como um detector de fumaça: a função dela é disparar um alerta sempre que percebe perigo. “Cuidado, corra ou lute.”

Em quem atravessa uma fase de depressão ou de ansiedade que não passa, esse detector pode ficar sensível demais. Dispara por pouca coisa, ou demora a desligar mesmo quando não há fogo nenhum. Por isso pode aparecer um medo sem motivo, ou uma angústia que surge do nada enquanto você lava a louça.

Com o tempo, a mente também cria o hábito de ruminar: “eu não vou conseguir”, “nada vai mudar”, “eu sou um fracasso”. Esses pensamentos não são verdades sobre você. São o rastro de uma mente cansada, que passou tempo demais em alerta.

O que os estudos encontraram

O estudo mais conhecido sobre atenção plena e depressão foi publicado em 2000 por John Teasdale, Zindel Segal e Mark Williams. Eles testaram a terapia cognitiva baseada em mindfulness, um programa de oito semanas, com pessoas que já tinham passado por depressão e estavam recuperadas. Entre quem já tinha tido três episódios ou mais, o grupo que fez o programa teve recaídas com menos frequência do que o grupo que seguiu só o tratamento de costume. Estudos e revisões que vieram depois apontaram na mesma direção. Repare no que isso diz: a prática ajudou a proteger quem estava melhorando, junto com o cuidado médico, e não no lugar dele.

Sobre o cérebro, outros estudos acompanharam adultos durante oito semanas de treino de atenção e encontraram a amígdala reagindo menos a imagens emocionais depois do programa. A diferença apareceu na reação: o susto continua acontecendo, mas tende a passar mais rápido. São estudos pequenos e, em geral, com pessoas sem depressão. Eles mostram um caminho, não uma garantia.

Dito isso, a ideia central é simples: a meditação é treino. Ela não muda a sua opinião sobre a vida por decreto. Ela treina, repetição por repetição, o jeito como você recebe o que aparece na cabeça.


Quando meditar pareceu piorar

Talvez você já tenha baixado um aplicativo, fechado os olhos por cinco minutos e se sentido ainda pior, porque a mente não parou. Veio raiva, ansiedade, uma frustração enorme por não alcançar o tal “silêncio”. Isso é mais comum do que parece.

Muita gente acha que meditar é esvaziar a mente. Não é. A mente foi feita para produzir pensamentos, assim como o coração foi feito para bater. Meditar é mudar a sua relação com eles.

Pense numa chuva forte. O estado depressivo é como estar debaixo dela sem proteção nenhuma, encharcado por cada gota. A prática não faz a chuva parar. Ela te ajuda a perceber que dá para olhar a chuva de dentro de casa, pela janela: “olha lá um pensamento de culpa”, “lá vem aquele sentimento de inutilidade”. A chuva continua. Mas você não está mais debaixo dela o tempo inteiro.


A prática5 a 10 min

Prática: a âncora dos pés no chão

Para quem está com a mente girando, tentar focar “no nada” é tortura. Você precisa de uma âncora concreta, e de preferência longe do peito, onde a angústia costuma morar. Os pés e as mãos são uma boa escolha: estão sempre ali e quase nunca assustam.

Dá para fazer hoje mesmo, sem acessório nenhum. Cinco a dez minutos.

  1. Postura (1 minuto). Sente-se numa cadeira com os pés apoiados no chão. Costas retas, sem rigidez. Mãos nas coxas. Você pode manter os olhos abertos, apoiados num ponto à sua frente, ou fechá-los, se isso for confortável.
  2. Os pés (3 a 5 minutos). Leve a atenção para a sola dos pés. Sinta o contato com o chão: o calcanhar, os dedos, o peso. Se quiser, aperte levemente os dedos contra o chão e solte. Depois, perceba as mãos sobre as coxas, o tecido, a temperatura.
  3. A observação do pensamento (o tempo todo). Em algum momento, um pensamento vai surgir: “isso é bobagem”, “eu não estou sentindo nada”. Quando acontecer, dê um nome a ele: “pensando”. Não lute, não tente expulsar. Diga a palavra por dentro e volte para os pés.

Um exemplo

Você sente os calcanhares no piso frio. Vem a frase “eu não vou dar conta de amanhã”. Você diz por dentro “pensando” e volta para os dedos dos pés. A frase volta. “Pensando.” Volta para o chão. Cinco minutos assim, com várias voltas, é a prática feita.

Se não funcionar

Se a angústia subir: o cérebro de quem está sofrendo pode estranhar o silêncio. Se isso acontecer, abra os olhos e diga o nome de três coisas que você está vendo agora: “cadeira azul”, “caneta preta”, “parede branca”. Isso traz você de volta para o mundo físico. Depois, se quiser, continue de olhos abertos, só com os pés no chão. E, se a angústia estiver grande, o melhor passo pode ser ligar para alguém de confiança ou para o 188.


O que a prática faz, e o que ela não faz

É importante ser honesto: meditar não apaga as causas da depressão. Se existem perdas, traumas, dificuldades financeiras ou relações que machucam, a meditação não resolve esses fatos.

Mas ela pode ajudar a devolver um pouco de espaço. Quando você percebe que está ruminando e escolhe voltar para os pés no chão, abre um intervalo pequeno entre o pensamento e você. Nesse intervalo, fica mais fácil cuidar de si, pedir ajuda, dar o próximo passo do tratamento.

Enquanto a coisa não tem nome nem forma, ela parece destino. Quando você começa a ver como ela funciona por dentro, ela vira mecanismo. E mecanismo é outra categoria de problema: continua difícil, mas deixa de ser sorte.

A mudança não acontece porque você decidiu ser feliz. Acontece aos poucos, porque você treinou um jeito novo de receber cada pensamento negativo. E ela começa quando você deixa de obedecer a cada pensamento que aparece e passa a ser quem o escuta chegar, sabendo que ali toca um alarme sensível demais, e não uma verdade sobre você.

Felipe Lapa

Quem escreve

Felipe Lapa

Escritor, palestrante e instrutor de meditação, mindfulness e autoconhecimento. Há catorze anos, desde 2012, estuda e ensina esse caminho, e já acompanhou mais de quinze mil pessoas em palestras, cursos, retiros e mentorias. É autor de O Estudo da Vida: O Manual que Você Nunca Recebeu.

Entrevistado pela TV Globo, pela CBN e pelos jornais de Pernambuco. Palestras para mais de 40 empresas e instituições.

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