Felipe Lapa

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5 livros de meditação e como levar a leitura para a prática

Para quem tem livros de meditação na estante e a prática no mesmo lugar: cinco leituras que valem o tempo, o que cada uma ensina e um jeito simples de ler e praticar no mesmo dia.

Felipe Lapa6 min de leitura

Você já leu o livro, assistiu aos vídeos e sabe exatamente como a meditação deveria funcionar. Sabe que a respiração é a âncora e que o objetivo é a presença. Mas, na hora de sentar, a cabeça parece um liquidificador ligado no máximo, e em dois segundos você está pensando na planilha de amanhã ou numa conversa mal resolvida de anos atrás.

Talvez você tenha dois ou três livros sobre o assunto na estante. Leu, concordou, sublinhou trechos, e continuou exatamente onde estava. Isso não é culpa sua nem dos livros. É o que acontece quando a leitura, sem perceber, vira um escudo: é mais confortável ler sobre como lidar com a ansiedade do que sentar no silêncio e encarar o tamanho do barulho interno. O conhecimento informa. O que transforma é o que você faz com ele, sentado, por alguns minutos.

E há uma coisa que muita gente só descobre tarde: a meditação não serve para esvaziar a mente. A mente foi feita para produzir pensamentos, assim como o coração foi feito para bater. Tentar parar os pensamentos é como tentar parar o vento com as mãos. Meditar é observar o vento, e não tentar pará-lo. Quando você entende isso, a prática deixa de ser uma luta contra si mesmo e vira um estudo sobre como você funciona. E os bons livros ficam ainda melhores, porque você passa a reconhecer neles o que viveu sentado.


O que procurar num livro de meditação

Ler sobre o assunto ajuda, mas alguns livros atrapalham ao vender a ideia de que você precisa atingir um estado místico ou desligar o cérebro. Para quem procura alívio concreto para a ansiedade ou para o cansaço, a leitura que mais serve é a técnica e a prática: a que explica o que fazer e por quê.

Selecionei cinco livros que juntam profundidade e aplicação no dia a dia.

Cinco livros que levam da página para a prática

1. Atenção Plena: Mark Williams e Danny Penman

Este é o ponto de partida ideal para quem é cético. O livro não pede que você acredite em nada, nem que mude de religião ou de filosofia de vida. Ele apresenta o mindfulness como um programa de oito semanas, o mesmo desenho da terapia cognitiva baseada em mindfulness que os autores ajudaram a criar e a testar.

O mecanismo: a desidentificação. Você aprende que não é o seu pensamento, você apenas tem um pensamento. Isso tira peso da ansiedade, porque você para de lutar contra a sensação e começa a observá-la como quem olha a chuva cair pela janela.

2. Onde Quer que Você Vá, É Você que Está Lá: Jon Kabat-Zinn

Kabat-Zinn levou a atenção plena para dentro do hospital, num programa para pacientes com dor crônica e estresse intenso. Este livro é feito de textos curtos e diretos, ideais para quem não tem tempo ou paciência para tratados longos.

O mecanismo: a integração. O livro mostra que a meditação não acontece só sentado numa almofada, mas enquanto você lava a louça, caminha até o carro ou escuta um filho. Ele transforma a vida cotidiana na própria prática.

3. O Poder do Agora: Eckhart Tolle

Muito popular, e muitas vezes lido como algo puramente espiritual. Se você deixar de lado os termos abstratos e ficar com o núcleo do texto, encontra uma ferramenta útil para lidar com a própria cabeça.

O mecanismo: a observação do fluxo. Tolle ensina a notar o “comentador interno”, aquela voz que passa o dia julgando tudo o que acontece. Quando você percebe que existe alguém assistindo a essa voz, abre um espaço entre o que acontece e a sua reação.

4. A Ciência da Meditação: Daniel Goleman e Richard J. Davidson

Este é o livro para quem quer saber o que a pesquisa encontrou de fato, sem exagero. Um jornalista de ciência e um neurocientista que estuda meditação há décadas revisam os estudos e separam o que se sustenta do que é propaganda.

O mecanismo: a expectativa no tamanho certo. Os autores mostram que muitos resultados divulgados por aí são frágeis e que os efeitos mais sólidos aparecem com a prática repetida, não com uma sessão. Para quem desconfia de milagre, é um ótimo antídoto, e um bom motivo para continuar sentando.

5. 10% Mais Feliz: Dan Harris

Harris era âncora de telejornal e teve um ataque de pânico ao vivo, diante de milhões de pessoas. Foi parar na meditação a contragosto, achando aquilo ridículo, e escreveu o livro contando o processo inteiro, inclusive a parte em que resistiu. É o único desta lista escrito por alguém que começou querendo provar que não funcionava.

O mecanismo: a honestidade sobre o tamanho do resultado. O título é a tese: não promete transformação, promete dez por cento. Para quem desconfia de promessa grande, essa é a porta de entrada mais fácil de atravessar.


Entre ler o cardápio e comer

“Já li sobre isso e, na hora H, continuo ansioso.” Faz sentido, porque existe uma distância grande entre entender com a cabeça e viver no corpo. Saber que você não é os seus pensamentos é uma coisa. Sentir isso enquanto o chefe levanta a voz com você é outra, completamente diferente.

É como ter fome e ler dez cardápios. Você pode conhecer cada prato, saber como ele é preparado, e a fome continua lá até você comer. O livro funciona como o cardápio: mostra o que existe e como se prepara. Comer é com você. E o passo começa pequeno: se você sentar cinco minutos e perceber cem vezes que a mente fugiu, não falhou cem vezes. Teve cem chances de praticar a volta.

Existe um paradoxo nisso. O único esforço de verdade está em sentar, reservar o tempo e não desistir no terceiro dia porque “não senti nada”. Uma vez sentado, o trabalho é de soltar: soltar a necessidade de que algo especial aconteça, soltar a cobrança por resultado imediato, soltar a imagem da pessoa serena que você vê na internet. A prática nem sempre é bonita ou relaxante. Às vezes é desconfortável, porque coloca você cara a cara com a própria agitação. E é observando essa agitação, em vez de fugir dela, que ela vai perdendo o comando.

A prática20 a 25 min

Para aplicar hoje: um capítulo, cinco minutos

Escolha um desses livros. Não tente ler tudo de uma vez. Siga este ciclo simples:

  1. Leia só um capítulo ou algumas páginas (15 a 20 minutos).
  2. Feche o livro e faça cinco minutos de observação da respiração, tentando pôr em prática o que acabou de ler. No último minuto, abra o campo: note os sons ao redor, o peso do corpo na cadeira, os pensamentos passando como carros na rua.
  3. Antes de abrir os olhos, pergunte-se em silêncio: “como isso apareceu na minha mente agora?”. Fique com a primeira resposta que vier.

Se não funcionar

Se aparecer irritação ou tédio durante a prática, não tente eliminar esses sentimentos. Só dê nome a eles: “estou sentindo irritação”. No momento em que você nomeia a emoção, deixa de ser arrastado por ela e passa a observá-la. É aí que a mudança começa.


Ler e sentar, no mesmo dia

Os livros desta lista são bons companheiros, e vale ter pelo menos um deles por perto. Eles explicam o que você está treinando, dão nome ao que aparece e ajudam a continuar nos dias em que a vontade some. O que eles pedem, todos, é a mesma coisa: que a página termine numa cadeira.

O livro é o mapa. A montanha se sobe sentando, cinco minutos de cada vez.

Felipe Lapa

Quem escreve

Felipe Lapa

Escritor, palestrante e instrutor de meditação, mindfulness e autoconhecimento. Há catorze anos, desde 2012, estuda e ensina esse caminho, e já acompanhou mais de quinze mil pessoas em palestras, cursos, retiros e mentorias. É autor de O Estudo da Vida: O Manual que Você Nunca Recebeu.

Entrevistado pela TV Globo, pela CBN e pelos jornais de Pernambuco. Palestras para mais de 40 empresas e instituições.

A trajetória

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