Felipe Lapa

BlogQuando a ansiedade dispara

O que está alimentando sua ansiedade e você nem percebe?

Para quem sente uma inquietação que não passa sem nenhum motivo grande à vista. Os pensamentos e hábitos pequenos que mantêm a ansiedade ligada, o que costuma existir por baixo de um deles e uma prática de cinco minutos para começar hoje.

Felipe Lapa6 min de leitura

Você já se pegou sentindo ansiedade sem saber exatamente o motivo? Nenhum evento grande acontecendo, nenhuma crise à vista. E mesmo assim, aquela inquietação que não passa.

Na maioria das vezes, não são os grandes acontecimentos que alimentam a ansiedade. São pequenas ações diárias e pensamentos automáticos, tão sutis que passam despercebidos. É como manter um motor ligado 24 horas por dia: ele funciona, funciona, e uma hora superaquece. Aquele zumbido constante no peito é o motor avisando que ninguém o desliga há tempo demais.

O que mantém o motor ligado sem você perceber

A ansiedade quase nunca nasce de um único lugar. Ela se constrói de uma combinação de fatores. Alguns são óbvios. Outros, completamente invisíveis.

Pensamentos automáticos são um dos principais combustíveis. A autocrítica constante, a preocupação com o futuro que nunca para, a sensação de que “algo vai dar errado”. Tudo isso mantém o corpo em estado de alerta, como se houvesse uma emergência o tempo todo.

E repare onde está o combustível: não nos fatos da vida, que muitas vezes estão em ordem, mas nas frases que a cabeça repete sobre os fatos. Quantas dessas frases a sua cabeça repete por dia sem que você note que são pensamentos, e não verdades? E quantas delas você já nem chama de ansiedade, e sim de outro nome: responsabilidade, perfeccionismo, “eu sempre fui assim”?

E não são só os pensamentos. Hábitos que parecem inofensivos fazem a mente nunca desligar de verdade: notícia sem limite de hora, rolagem infinita nas redes, o celular conferido antes mesmo de levantar da cama, um dia inteiro sem uma pausa que mereça esse nome. Cada um, sozinho, parece pequeno. Juntos, no piloto automático, eles são a mão que segura a chave do motor na posição de ligado.

E se serve de alívio: isso não é um defeito seu. A mente humana não foi feita para a quantidade de estímulos que recebe hoje, num dia comum. Não é um problema individual de quem não consegue relaxar: é um jeito de viver que chega à sua casa em forma de noite mal dormida. O problema é de todos. A saída, essa sim, começa em você.

Uma honestidade necessária antes de seguir: quando a ansiedade já é um transtorno diagnosticado, ou já impede a vida, uma prática como a deste artigo acompanha o tratamento com um profissional, não o substitui.


O que existe por baixo de um hábito

Isso aparece com frequência: a pessoa chega dizendo que “não sabe por que está ansiosa”. Quando começamos a olhar com calma, a resposta aparece. Quase sempre, a ansiedade tem raízes em camadas mais profundas: são cinco, da ferida primária, lá embaixo, até o sintoma visível, na superfície. E um hábito pequeno, desses que você repete sem pensar, é um bom lugar para começar a enxergá-las.

Pegue o celular conferido de cinco em cinco minutos. Na superfície, a camada do sintoma, está a inquietação: a sensação de que você pode estar perdendo alguma coisa. Logo abaixo está o hábito em si, que é um padrão de comportamento: conferir, responder rápido, conferir de novo. Se você para de conferir por meia hora e presta atenção ao que sente, costuma aparecer a emoção que o hábito estava cobrindo: medo de decepcionar, de ser pego desprevenido. Mais fundo, uma crença do tipo “se eu não responder logo, vão achar que eu não dou conta”. E, na base, alguma experiência antiga em que estar sempre disponível pareceu a única forma de estar seguro.

Repare que o hábito não é bobagem nem falta de disciplina. Ele é uma proteção. É por isso que “use menos o celular” raramente funciona sozinho: o conselho mexe na superfície e deixa intacto o que está segurando o hábito por baixo.

A ansiedade que você sente hoje é o zumbido, não o motor inteiro. Ela é real, ela é válida. Mas ela não é a sua inimiga: é uma mensageira, apontando para algo mais fundo que pede atenção.

E ignorar a mensageira tem preço. Motor que nunca desliga superaquece: o sono encurta, a concentração escapa, o corpo tensiona sem motivo aparente. Não porque você é fraco. Porque nenhum motor foi feito para funcionar sem pausa. E se o seu momento já não é a inquietação difusa, e sim a crise, com o coração disparado e o ar curto, existe um guia para a hora em que o corpo dispara.


A prática5 min

Uma prática para hoje: nomear o pensamento antes de acreditar nele

“Já tentei relaxar, já tentei parar de pensar, e em dois minutos a cabeça volta a girar.” É verdade, e é por isso que esta prática não pede que você pare de pensar. Ela pede só que você veja o pensamento. Esse é o primeiro gesto de todos: abrir um espaço entre o estímulo e a resposta.

  1. Reserve 5 minutos, uma vez por dia. De preferência no mesmo horário, num lugar tranquilo. Celular longe da mão.
  2. Feche os olhos ou baixe o olhar e pergunte: “o que a minha cabeça está dizendo agora?” Não force. Espere a primeira frase aparecer. Ela costuma vir rápido.
  3. Nomeie a frase, em voz baixa ou por dentro: “estou tendo o pensamento de que…”, e complete com o que veio.
  4. Fique com a frase nomeada até o tempo acabar. Não discuta com ela, não a corrija, não procure provas contra. Só observe: é um pensamento. Veio, e vai passar.
  5. Quando a mente voltar a girar no meio do exercício (e ela vai), isso não é falha: é o esperado. O motor está acostumado a ficar ligado. Nomeie de novo, “voltei a pensar”, e recomece sem se cobrar. Cada retorno é mais uma repetição do treino, não a prova de que você não consegue.

Um exemplo

Um exemplo: a frase que aparece é “vou estragar tudo”. Você nomeia: “estou tendo o pensamento de que vou estragar tudo”. Repare na diferença. “Vou estragar tudo” é uma sentença do tribunal. “Estou tendo o pensamento de que vou estragar tudo” é uma observação. Na primeira, você é o réu. Na segunda, você está olhando o julgamento de fora.

Se não funcionar

Se nos primeiros dias parecer que nada muda, continue por uma semana e repare em qual frase mais se repete. Essa frase é a porta de entrada das camadas de que falamos acima: atrás dela costuma estar o medo, e atrás do medo, a crença. Você não precisa escavar tudo hoje. Hoje, basta ver.


O motor pode desligar

Se o seu corpo aprendeu a ficar ligado 24 horas por dia, foi porque em algum momento isso pareceu necessário. Ele pode aprender o contrário. Não de uma vez, não por força de vontade: por repetição de um gesto pequeno, como o de hoje. Cinco minutos em que você tira a mão da chave e escuta o que o motor estava tentando dizer.

Você tem permissão para esses cinco minutos.

Felipe Lapa

Quem escreve

Felipe Lapa

Escritor, palestrante e instrutor de meditação, mindfulness e autoconhecimento. Há catorze anos, desde 2012, estuda e ensina esse caminho, e já acompanhou mais de quinze mil pessoas em palestras, cursos, retiros e mentorias. É autor de O Estudo da Vida: O Manual que Você Nunca Recebeu.

Entrevistado pela TV Globo, pela CBN e pelos jornais de Pernambuco. Palestras para mais de 40 empresas e instituições.

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