Felipe Lapa

BlogA voz que cobra

Pensamentos que travam você bem na hora de agir

Para quem trava um segundo antes de levantar a mão ou enviar o projeto, com a frase “não é bom o suficiente”. De onde vem essa voz, por que frases positivas não a calam e uma prática de quinze minutos para descobrir de quem ela era.

Felipe Lapa7 min de leitura

Você está prestes a levantar a mão em uma reunião ou a enviar aquele projeto que levou semanas para ficar pronto. No segundo antes do clique ou da fala, surge um ruído: “Não é bom o suficiente.” Ou talvez seja mais sutil: “Se eu tentar e falhar, vão perceber que eu não sei o que estou fazendo.” Você engole seco, hesita e, na maioria das vezes, recua. Não por falta de competência, mas porque existe uma voz interna que já decidiu o resultado antes mesmo de você começar.

Esses pensamentos funcionam em segundo plano. Eles não gritam o tempo todo, e por isso você começa a acreditar que eles são a verdade sobre quem você é. Você para de chamar isso de pensamento e passa a chamar de “minha personalidade”. Diz que é perfeccionista, que é cauteloso ou que simplesmente não tem confiança. Mas, na verdade, você não é cauteloso: você está sendo conduzido por um mecanismo que aprendeu a proteger você do erro a qualquer custo.


Essa frase não nasceu com você

Ninguém nasce acreditando que não merece dar certo ou que vai fracassar. Essas vozes não vêm com a gente ao nascer. Elas são construídas. São respostas a experiências que vivemos, geralmente quando ainda não tínhamos recursos para entender o que estava acontecendo. Se você foi criticado demais na infância, se sentiu que precisava ser perfeito para ser amado ou viu alguém que admirava desmoronar diante de um erro, a sua mente criou uma estratégia: “Se eu me diminuir primeiro, a queda dói menos.”

O pensamento que trava não é um defeito de fabricação, é uma armadura que você vestiu para sobreviver. O problema é que a armadura que protegeu você no passado agora é a mesma que impede você de caminhar hoje.

O que existe por baixo do pensamento

Para entender isso, vale olhar para a estrutura da dor. Imagine que o seu sofrimento tem camadas. Na superfície está o sintoma visível: a procrastinação, a voz que falha na hora de pedir um aumento ou a insônia antes de um evento importante. Logo abaixo vem o padrão de comportamento: você evita desafios, pede desculpas por existir ou se anula nas relações. E abaixo do comportamento está a crença nuclear.

A crença nuclear é aquela frase curta e devastadora que resume a sua visão de mundo: “Eu não sou capaz”, “Não sou digno de amor” ou “O mundo é um lugar perigoso”. O pensamento que surge na reunião é apenas o eco dessa crença.


Por que frases positivas não calam essa voz

Se você chegou até aqui, provavelmente já tentou resolver isso. Talvez tenha repetido frases positivas na frente do espelho: “Eu sou capaz”, “Eu sou forte”, “Tudo vai dar certo”. E percebeu que, na hora da reunião, a voz antiga continuava lá, intacta.

A razão é simples. Uma afirmação positiva é como responder a uma voz antiga com um bilhete novo: a voz conhece você há trinta anos; o bilhete, há três dias. Se a sua crença nuclear diz que você não é bom o suficiente, a sua mente vai rejeitar qualquer frase que não combine com essa “verdade” interna. Para ela, acreditar na afirmação seria perigoso, porque significaria baixar a guarda e ficar exposto ao risco de falhar.

A saída não é forçar um pensamento positivo, mas aprender a observar o pensamento sem se fundir com ele. Existe uma diferença enorme entre dizer “Eu sou um fracasso” e “Eu estou tendo o pensamento de que sou um fracasso”. Na primeira frase, você é o problema. Na segunda, você é quem observa o problema. Quem observa não está preso; quem observa tem espaço para escolher a resposta.

De quem era a voz

E aqui está o passo que muda o jogo. O pensamento que trava você tem uma frase, e essa frase tem um dono que a disse primeiro, muito antes de você a repetir sozinho.

Repare no tom da voz que aparece um segundo antes de você agir. Às vezes ela tem a impaciência de um pai que suspirava diante de cada erro. Às vezes, a ironia de um professor, o olhar de um irmão mais velho, o silêncio de uma mãe que só sorria quando a nota era dez. Às vezes não é uma pessoa, mas uma conclusão que você tirou sozinho, muito cedo, diante de uma cena que doeu.

Quando você reconhece de onde ela veio, algo se desloca. A frase deixa de soar como verdade sobre você e passa a soar como o que ela é: uma fala antiga, de outra pessoa, de outro tempo, que você continuou repetindo por lealdade ou por proteção. Descobrir de quem era a voz costuma tirar dela metade do peso. E a outra metade começa a afrouxar quando você percebe que, hoje, quem decide se levanta a mão é você.

A prática15 min

A prática do observador: três passos até a voz

Para começar a desmontar esse mecanismo hoje, você precisa de atenção e de honestidade. Este exercício de auto-observação leva cerca de 15 minutos. Não é para eliminar o pensamento, mas para mudar a sua relação com ele e chegar até a voz que o disse primeiro.

Escolha um momento do dia em que você esteja sozinho e em silêncio. Sente-se, feche os olhos e faça os três passos por dentro, ou em voz baixa.

  1. A captura (5 minutos): lembre de uma situação recente em que você travou, desistiu ou se sentiu inferior. Encontre a frase exata que passou pela sua cabeça e repita-a por dentro, do jeito que veio. Não tente embelezar. Se o pensamento foi “eu sou um idiota”, é exatamente isso.
  2. A desidentificação (5 minutos): agora, diga a mesma frase transformada em observação, com esta fórmula: “Eu percebo que estou tendo o pensamento de que…”, e complete. Repita duas ou três vezes, devagar, e repare na distância que se abre.
  3. De quem era a voz (5 minutos): pergunte a si mesmo: “Se esse pensamento tivesse um dono, quem teria me ensinado isso? Essa voz soa como alguém do meu passado, ou é uma conclusão que eu tirei de alguma experiência antiga?”. Não precisa de uma resposta definitiva agora. Apenas escute o tom da frase e sinta onde ela ecoa no seu corpo.

Um exemplo

A captura é “eu não vou conseguir apresentar esse relatório porque vão perceber que eu não domino a planilha”. A desidentificação vira “eu percebo que estou tendo o pensamento de que não vou conseguir apresentar esse relatório”. E, na terceira pergunta, o tom da frase lembra a voz de alguém que, na infância, corrigia cada lição de casa antes de você terminar.

Se não funcionar

Se você sentir que não consegue se distanciar do pensamento e a angústia apertar, deixe as perguntas de lado por um instante. Respire fundo três vezes, sentindo o ar entrar e sair. Abra os olhos e nomeie três objetos que você está vendo agora: “uma cadeira, uma caneta, uma janela”. Isso traz você de volta para o presente. Amanhã, tente de novo, com calma.


Do personagem à tela

A meditação entra aqui não como algo místico, mas como um treino para a sua mente. Quando você medita, treina a capacidade de ver um pensamento surgir, reconhecê-lo e deixá-lo ir sem se agarrar a ele. Com o tempo, você começa a fazer isso no meio da reunião, no meio da briga com o parceiro ou na hora de tomar uma decisão difícil.

Você deixa de ser o personagem do filme que entra em pânico quando o vilão aparece e passa a ser a tela onde o filme é projetado. O filme pode ser um drama, uma tragédia ou um suspense, mas a tela permanece intacta.

Libertar-se desses padrões não acontece do dia para a noite. É um processo de estudo. Você começa a notar que o “eu sempre fui assim” é, na verdade, um “eu aprendi a ser assim para me proteger”. E aquilo que foi aprendido pode ser desaprendido.

Na próxima vez que a voz disser que você não consegue, não lute contra ela. Não tente convencê-la do contrário com frases motivacionais. Apenas olhe para ela e diga: “Olha só, lá está aquele pensamento de novo. Eu sei de quem é essa voz.” No momento em que você reconhece o mecanismo, ele perde a força. Você não é mais prisioneiro da sua história; começa a se tornar o autor dela.

Felipe Lapa

Quem escreve

Felipe Lapa

Escritor, palestrante e instrutor de meditação, mindfulness e autoconhecimento. Há catorze anos, desde 2012, estuda e ensina esse caminho, e já acompanhou mais de quinze mil pessoas em palestras, cursos, retiros e mentorias. É autor de O Estudo da Vida: O Manual que Você Nunca Recebeu.

Entrevistado pela TV Globo, pela CBN e pelos jornais de Pernambuco. Palestras para mais de 40 empresas e instituições.

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