Felipe Lapa

BlogComeçar a meditar

5 mitos sobre meditação que impedem você de começar

Para quem decidiu que meditar não é para si sem nunca ter testado o que ouviu falar: os cinco mitos que mais fazem gente desistir, três surpresas que quase ninguém conta a quem começa e um exercício de três minutos para fazer onde você estiver.

Felipe Lapa5 min de leitura

Alguém te disse que meditar é esvaziar a mente. Outra pessoa jurou que precisa ser de pernas cruzadas, no chão, de manhã cedo. Uma terceira garantiu que dá para sentir os efeitos na primeira semana. Você não testou nenhuma das três coisas, mas guardou todas, e é em cima delas que você decidiu que isso não é para você.

O problema é que a gente confunde a prática com a imagem que vê no Instagram. Acreditamos em versões simplificadas da coisa e, quando não conseguimos repetir a foto, desistimos. O resultado é que continuamos tentando resolver o estresse com mais telas, mais café ou mais distrações.


O que realmente acontece quando você medita

A maioria de nós encara a meditação como uma tarefa para “limpar a mente”. Isso é um erro de mecanismo. A mente não funciona assim. O cérebro produz pensamentos da mesma forma que o coração bate ou os pulmões respiram. Tentar parar de pensar é como tentar mandar o coração parar de bater por alguns minutos.

Aqui estão as confusões mais comuns que impedem você de começar:

1. Achar que meditar é não pensar em nada

Se você conseguir ficar cinco minutos sem um único pensamento, parabéns, você é a primeira pessoa na história da humanidade a conseguir isso. O objetivo não é o vazio. O objetivo é a observação. Meditar é perceber que você se distraiu e ter a capacidade de voltar para o presente. É nessa volta que mora o treino.

2. Acreditar que precisa da posição de lótus

Se você não tem elasticidade nas pernas e tenta forçar aquela pose de pernas entrelaçadas das fotos, você não vai meditar sobre a paz. Você vai meditar sobre a dor no seu joelho. O desconforto físico gera ruído mental. A única regra real é manter a coluna ereta para que você não durma, mas pode ser em uma cadeira, no sofá ou com as pernas cruzadas de forma simples. O foco está na consciência, não na ginástica.

3. Confundir prática com religião

A meditação tem raízes em tradições antigas, mas ela é, essencialmente, um treino de atenção. Assim como escovar os dentes não te torna dentista e fazer academia não te torna atleta olímpico, meditar não te torna budista ou religioso. Muita gente começa justamente para lidar melhor com a ansiedade e o estresse do dia a dia, e a sua crença não muda nada nisso: o que se treina é o jeito como você percebe o que acontece e responde a ele.

4. O mito do “sou ansioso demais para isso”

Talvez a sua frase seja esta: “eu já tentei, mas minha cabeça não para, eu sou agitado demais”. É justamente para isso que a prática existe. Dizer que não consegue meditar porque é ansioso é como dizer que não vai tomar banho porque está sujo. A prática não é para quem já tem a mente calma. Ela é o caminho para quem vive no caos e precisa de um ponto de apoio para não ser engolido pelas próprias emoções.

5. Achar que precisa de horas de dedicação

Quem tenta começar com trinta minutos geralmente desiste na primeira semana. Mudança brusca raramente dura. É preferível fazer cinco minutos todos os dias do que uma hora uma vez por mês. A constância vence a intensidade. O cérebro aprende pelo que repete: se você passa o dia treinando a preocupação, fica excelente em se preocupar; se treina a presença todos os dias, mesmo que por poucos minutos, fica bom em estar presente. O que conta não é a duração da sessão, é a regularidade.


Três surpresas de quem começa de verdade

Quando os mitos caem e você finalmente senta, aparecem algumas coisas que quase ninguém conta. Saber delas antes evita que você confunda o começo do treino com o fim dele.

A cabeça parece mais barulhenta nos primeiros minutos

Quem senta esperando calma leva um susto: o barulho da cabeça parece aumentar. Ele não aumentou. Você passou o dia inteiro abafando esse barulho com tela, conversa e tarefa, e acabou de tirar o abafador. O volume que você ouve agora é o volume que estava lá o tempo todo. Ouvir isso não é sinal de que piorou. É o primeiro retrato honesto de como a sua mente funciona.

Meditar não é relaxar, e tem dia em que é o contrário

Relaxar é passivo: você se solta e deixa acontecer. Meditar é ativo, é ficar acordado de propósito, prestando atenção. Por isso é comum terminar uma sessão mais alerta do que começou e concluir daí que fez errado. Não fez. Descanso e presença são coisas diferentes, e a prática treina a segunda.

A pior sessão costuma ser a que mais treina

Quem passou dez minutos percebendo que se distraiu e voltando fez dezenas de repetições do único movimento que importa. Quem ficou concentrado do começo ao fim, se é que isso acontece, não fez nenhuma. Isso inverte a régua com que quase todo mundo julga a própria prática, e explica por que tanta gente desiste justamente quando estava treinando melhor.


A prática3 min

Para você testar agora: o exercício dos três minutos

Você não precisa de incenso, música relaxante ou um tapete especial. Pode fazer isso onde estiver sentado agora.

  1. Minuto 1 (Observação): Feche os olhos e apenas note a sua respiração. Não tente mudá-la, não tente respirar “do jeito certo”. Apenas sinta o ar entrando e saindo.
  2. Minuto 2 (Escaneamento): Perceba onde seu corpo está tocando a cadeira ou o chão. Note se há tensão nos ombros ou na mandíbula. Apenas observe, sem tentar consertar nada.
  3. Minuto 3 (Retorno): Quando um pensamento vier (e ele virá), diga mentalmente: “pensando”. E volte a atenção para a respiração.

Se não funcionar

E se não funcionar? Se você passar os três minutos inteiros lutando contra os pensamentos, parabéns. Você acabou de descobrir como sua mente funciona no piloto automático. O “não funcionar” é, na verdade, o primeiro passo do aprendizado: você finalmente viu a agitação.


O que sobra quando os mitos caem

Nenhum dos cinco mitos aguenta dez minutos de prática honesta. O primeiro a cair costuma ser o maior deles, o de que meditar é não pensar. Você senta, a cabeça foge, você volta. E descobre que era isso o tempo todo.

Meditação não é para quem já chegou a algum lugar. É para quem cansou de viver no piloto automático e quer começar a perceber o que acontece por dentro, um retorno de cada vez.

Quando quiser passar dos três minutos, os quatro passos para começar a meditar levam a mesma prática a dez.

Felipe Lapa

Quem escreve

Felipe Lapa

Escritor, palestrante e instrutor de meditação, mindfulness e autoconhecimento. Há catorze anos, desde 2012, estuda e ensina esse caminho, e já acompanhou mais de quinze mil pessoas em palestras, cursos, retiros e mentorias. É autor de O Estudo da Vida: O Manual que Você Nunca Recebeu.

Entrevistado pela TV Globo, pela CBN e pelos jornais de Pernambuco. Palestras para mais de 40 empresas e instituições.

A trajetória

Newsletter

Receba os textos por e-mail

Quando sair um texto novo, ele chega na sua caixa de entrada, com a prática do dia. Você sai quando quiser.

Ao enviar, você aceita receber os textos por e-mail.