Felipe Lapa

BlogO trabalho e você

Burnout nas empresas: o que o líder vê antes da parada forçada

Para quem lidera ou trabalha numa equipe em que todo mundo entrega e ninguém fala do cansaço: por que o burnout também é assunto da empresa, o que a cultura ensina sem perceber e um check-in de três minutos que começa por quem lidera.

Felipe Lapa7 min de leitura

Domingo à noite, o peito aperta antes mesmo de você pensar em segunda-feira. Você dorme as horas que devia dormir e acorda do jeito que deitou: sem energia. Na reunião das nove, olha em volta e percebe que não é só você. Tem gente respondendo no automático, gente que já não discorda de nada, gente que parou de sugerir. Ninguém fala disso. A pauta segue.

É como dirigir com a luz do óleo acesa há meses. Você vê o aviso, sabe que tem alguma coisa errada ali dentro, e mesmo assim pisa fundo, porque parar agora parece pior do que ir quebrando aos poucos. Dentro de uma empresa, isso ganha uma camada a mais: não é um carro, é uma frota. E muitas vezes quem vai na frente, ditando a velocidade, é justamente o líder com o painel mais aceso de todos.

A Organização Mundial da Saúde trata o burnout como fenômeno ocupacional: ele nasce do trabalho, do jeito como o trabalho é vivido. Os sinais do burnout na pessoa eu descrevo em outro texto. Este é sobre o que acontece em volta dela: na equipe, na cultura e em quem lidera.


Burnout não é assunto só de quem adoece

Quando alguém da equipe para, a conversa costuma ser sobre aquela pessoa: ela não aguentou, ela estava com problemas em casa, ela precisa se cuidar. Pode ser tudo verdade. Mas raramente alguém pergunta o que, no jeito de trabalhar daquele lugar, ajudou a acender a luz.

Tem uma armadilha que vale nomear: empurrar mais não rende mais. Passado certo ponto, as pessoas erram mais, esquecem mais, decidem pior, e a sensação de estar sempre atrasado cresce junto com as horas emendadas para tentar dar conta. Uma equipe inteira nesse estado continua entregando, por um tempo. Só que entrega emprestando de uma reserva que, em algum momento, não tem mais fundo.

O que torna isso traiçoeiro é que, por fora, quase nada aparece. Todo mundo responde mensagem, sorri na reunião, bate a meta do trimestre. A descrição que mais se aproxima é esta: não são pessoas com problemas, são pessoas comuns, carregando dores invisíveis sem ter a menor ideia de que elas estão ali. E uma cultura que só olha para o resultado do trimestre não tem como ver o que está por baixo dele.


Não é o trabalho, é a desconexão dentro dele

O sintoma não é o inimigo. É o mensageiro. O corpo grita quando a mente já vinha sussurrando havia meses e ninguém escutou direito. A irritação na reunião, o “tanto faz” de quem antes brigava pelas ideias, o erro bobo de quem nunca errava, tudo isso é aviso, não defeito de fabricação. E o aviso não é sobre a quantidade de horas trabalhadas. É sobre o tanto de cada pessoa que ficou de fora enquanto trabalhava.

Burnout não é trabalhar demais. É trabalhar desconectado de si por tempo demais.

É por isso que duas pessoas na mesma função, com a mesma carga, chegam a lugares bem diferentes. Uma trabalha oito horas presente no que faz, sente o cansaço natural do fim do dia e dorme. A outra trabalha as mesmas oito horas no piloto automático, empurrando o que sente para depois, e chega em casa sem fôlego nem para ficar com quem ama. A conta que estoura não é de horas. É de tudo o que ficou engolido no meio delas.

E a empresa ensina, sem perceber, qual dos dois jeitos é o esperado. O líder que responde e-mail à meia-noite ensina que a meia-noite também é expediente, mesmo que nunca diga isso. A reunião que podia ser uma mensagem ensina que a agenda de ninguém é levada a sério. O “sim” automático, dado antes de pensar, vira o idioma da casa.


O líder também tem o painel aceso

Conheço bem essa dinâmica. Antes de trabalhar com autoconhecimento, eu vivi isso: o hábito de dizer sim a tudo até não sobrar sim nenhum para mim. E depois, nas palestras e nos programas que levo a empresas e órgãos públicos desde 2017, vi esse padrão se repetir em gente que não tinha nada a ver uma com a outra.

Quem lidera costuma ser a última pessoa a olhar para o próprio painel. Afinal, é dela que se espera firmeza. Só que um líder que não enxerga a própria luz acesa também não enxerga a da equipe, porque está ocupado demais fingindo que a dele está apagada. E o contrário vale: quando quem lidera começa a reconhecer o próprio cansaço, abre espaço para que os outros reconheçam o deles sem medo de parecer fracos.

Não se trata de virar terapeuta da equipe. Trata-se de reparar. Quem parou de discordar? Quem passou a responder tudo às onze da noite? Quem sumiu das conversas de corredor? Essas perguntas não pedem diagnóstico. Pedem presença.


A prática3 min

A pausa real, com passos

Aqui vai um jeito de começar a escutar o painel hoje, não daqui a um mês de férias que talvez nem venha. Serve para qualquer pessoa da equipe, e começa por quem lidera. Leva três minutos, duas vezes por dia: de manhã, antes de abrir o primeiro aplicativo do trabalho, e à noite, antes de deitar.

  1. Pare e olhe para o corpo (30 segundos). Sem julgar, só descrever: onde dói, onde está tenso, onde falta ar. Nada de resolver ainda, só notar.
  2. Nomeie a emoção com uma palavra só (1 minuto). Não “estou meio assim”. Uma palavra: cansaço, raiva, medo, tristeza. Diga em voz alta, se puder, mesmo que seja no carro ou no banheiro.
  3. Pergunte: quando foi a última vez que eu disse não? (1 minuto) Não precisa responder direito. Só sentir se a resposta incomoda.
  4. Escolha uma coisa pequena para tirar de hoje (30 segundos). Uma reunião que pode virar mensagem, uma tarefa que pode esperar até amanhã, um sim que ainda não foi dado e pode continuar não sendo.

Um exemplo

Ombro direito tenso e mandíbula apertada. A palavra é “sobrecarga”. A última vez que disse não foi há três semanas. E o que sai de hoje é responder aquele grupo de trabalho amanhã de manhã, não às 22h de hoje. Para quem lidera, esse pequeno gesto já muda o recado que a equipe recebe.

Se três minutos parecem impossíveis num dia ruim, existe a versão de vinte segundos: uma pergunta só, “o que o meu corpo está pedindo agora?”, respondida a caminho do banheiro ou enquanto o café coa. O que desliga o piloto automático não é a intensidade de uma vez só. É a repetição, todo santo dia, mesmo pequena.

A revisão semanal da agenda

Uma vez por semana, de preferência na sexta, antes de a agenda da semana seguinte fechar de vez, tire quinze minutos para olhar os compromissos que vêm: reuniões, tarefas, favores prometidos. Passe por cada um e pergunte: isto foi escolha, ou foi automático, aquele sim que saiu antes mesmo de eu pensar? No fim, escolha um automático para virar não, ou para virar uma versão menor do que era. Um só já basta para começar a desmontar o hábito. Numa agenda real, isso costuma ser recusar aquela reunião que sempre foi opcional, ou avisar que a resposta detalhada sai na sexta, não no mesmo dia às dez da noite. Quem lidera pode fazer essa revisão também com a equipe: que reunião da semana ninguém sentiria falta?

Se não funcionar

Quando a resposta é sempre a mesma

Quando o check-in trouxer a mesma resposta dia após dia, sempre a mesma dor no mesmo lugar, sempre a mesma vontade de sumir, isso já não é aviso pontual. É sinal de que a pausa de três minutos fez o trabalho dela, que era te fazer notar, e agora pede uma conversa maior, com quem pode te ajudar a cuidar disso.

Parar pela própria mão

Ninguém precisa esperar o hospital, a demissão ou o colapso de alguém da equipe para dar valor ao aviso que já está aceso. A pergunta não é se você vai parar. É se vai parar pela sua mão, enquanto ainda escolhe, ou se vai deixar que o corpo escolha por você, do jeito mais caro que existe. E, se você lidera, se vai deixar que a equipe aprenda com você a ignorar o painel ou a olhar para ele.

Que luz está acesa no seu painel agora mesmo, essa que você vem adiando olhar?

Felipe Lapa

Quem escreve

Felipe Lapa

Escritor, palestrante e instrutor de meditação, mindfulness e autoconhecimento. Há catorze anos, desde 2012, estuda e ensina esse caminho, e já acompanhou mais de quinze mil pessoas em palestras, cursos, retiros e mentorias. É autor de O Estudo da Vida: O Manual que Você Nunca Recebeu.

Entrevistado pela TV Globo, pela CBN e pelos jornais de Pernambuco. Palestras para mais de 40 empresas e instituições.

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