Felipe Lapa

BlogA fome que não é de comida

Compulsão alimentar: o que fazer no minuto em que a vontade chega

Para quem percebe que está comendo só quando a mão já está no pacote: uma prática de cinco momentos para o minuto em que a vontade chega, e o que fazer quando, mesmo assim, ela não passa.

Felipe Lapa6 min de leitura

Neste artigo 4 partes

A mão já está dentro do pacote. Você não lembra de ter aberto. Não houve decisão nenhuma: teve o dia, teve alguma coisa que apertou por dentro, e agora tem a sua mão ali, se mexendo sozinha.

Ou é o corredor até a cozinha. Você levanta e o corpo já sabe o caminho. Só percebe que está comendo lá pelo terceiro pedaço, quando já não dá para desfazer.

Repare numa coisa: entre a vontade e a mão não passou nada. Nenhum segundo, nenhuma pergunta, nenhum espaço. Este texto é sobre abrir esse espaço, e sobre o que fazer dentro dele.

A comida é o meio, não a causa

O que dispara a compulsão quase nunca é fome. É uma emoção que precisa ser resolvida rápido, e comer é o jeito mais rápido que o corpo encontrou. Ansiedade depois de um dia que não coube. Solidão às nove da noite. Tédio. Vergonha. Cada pessoa tem o seu gatilho, e o mecanismo é o mesmo: aparece uma emoção difícil e, antes de ser sentida, ela é abafada com comida.

Por isso a comida chega tão depressa. Ela não está ali para matar a fome, está ali para que o sentimento não chegue até o fim. Se você já comeu sem fome e depois se culpou, conhece essa troca: alguns segundos de alívio no lugar de algo que ainda não tem nome.

Você já sabe disso, talvez. Já tirou o pacote de casa, já prometeu que segunda seria diferente, e funcionou até o dia em que apertou de novo. Não é falta de vontade. Quando a vontade senta para conversar, o automático já resolveu tudo.

O que está por baixo do impulso

A dor tem cinco camadas, e a compulsão é a de fora. Abaixo dela, o padrão: evitar a emoção em vez de senti-la. Mais fundo, a emoção que nunca foi processada, quase sempre vergonha e vazio. Depois, a crença que governa sem pedir licença: “eu não consigo me controlar”. E na base, uma ferida antiga, quase sempre de carência afetiva: uma casa onde o que você sentia não tinha para onde ir.

Repare no que essa sequência diz: a comida entrou na sua vida como solução, não como problema.

E isso muda a pergunta. Enquanto ela for “como eu paro?”, a resposta vai ser proibição, e proibição não toca no que está embaixo. A pergunta que abre alguma coisa é “por que isso acontece comigo?”, e sobre ela escrevi um artigo inteiro.


A prática5 a 8 min

A prática: cinco momentos, de cinco a oito minutos

Isto é uma ferramenta de resgate, para usar no minuto em que o impulso aparece, ou já com a boca cheia. Dá para fazer em qualquer lugar: no carro, no banheiro do trabalho, de pé na cozinha. E é bom ser honesto antes de começar: é socorro para aquele momento. A mudança que fica passa por entender o que gera a emergência.

  1. Pare. Literalmente. Quando perceber o impulso, pare o que está fazendo. Se a mão está no pacote, tire a mão. Se você já está indo para a cozinha, pare no corredor. Se já começou a comer, pouse o garfo.

    A compulsão vive no automático. Ela conta com você agir antes de perceber que está agindo. Quando você para, mesmo que por trinta segundos, aparece um espaço entre o impulso e a ação. É dentro dele que o resto acontece.

  2. Dê nome ao que você está sentindo. Feche os olhos, se der. Ponha a mão no abdômen, onde a urgência costuma morar. E pergunte: o que eu estou sentindo agora, por baixo da vontade de comer? Não force a resposta, espere o que aparecer. Pode ser ansiedade, pode ser solidão, pode ser um aperto sem nome.

    Aí nomeie, em voz baixa ou por dentro: “tem ansiedade aqui”, “tem solidão aqui”, “tem um vazio aqui”. Dar nome muda a intensidade do que você sente, e dá para notar isso ali mesmo. Não é mágica. É a diferença entre estar dentro da emoção e conseguir olhar para ela.

  3. Respire com a emoção, não contra ela. Inspire pelo nariz contando até quatro. Solte pela boca contando até seis. Muita gente sente o corpo baixar a guarda quando a saída do ar é mais longa que a entrada.

    Enquanto respira, imagine que está respirando para dentro daquele aperto. Não para dissolvê-lo, e sim para fazer companhia a ele, como quem senta ao lado de uma parte de você que só sabia pedir ajuda pela comida. Faça de seis a oito ciclos, uns dois minutos.

  4. Fale com quem aprendeu isso. Ainda de olhos fechados, traga uma versão mais nova de você: a criança que descobriu que comida acalma, porque por perto não havia mais nada que acalmasse. E diga, por dentro: “Eu sei que você quer se sentir melhor. Mas hoje eu estou aqui com você. Você não precisa se encher para não sentir.”

    Isso não desliga a vontade como um interruptor. Abre um caminho paralelo ao automático: em vez de emoção, comida e culpa, passa a ser emoção, presença e acolhimento.

  5. Decida. Depois da prática, você pode comer. Se quiser. A diferença é que agora é escolha, e não reação. E é comum que, passados esses minutos, a urgência já tenha diminuído: o que pedia para ser preenchido não era o estômago.

Se não funcionar

E se a vontade continuar do mesmo tamanho

Pode acontecer de você fazer os cinco momentos inteiros e a vontade continuar igual. Isso não é fracasso seu: aquela crise pedia mais do que cinco minutos conseguem dar. Coma, se for o caso, e depois repare no que veio antes. Que horas eram, o que tinha acabado de acontecer, com quem você falou.

E se a compulsão vem sempre acompanhada de culpa e vergonha que não passam, ou se já existe um transtorno alimentar diagnosticado, esta prática é apoio no momento e caminha junto com o acompanhamento profissional. Uma coisa não exclui a outra.


O espaço que antes não existia

Volte ao começo, à mão que já estava dentro do pacote antes de você perceber. O que a prática faz não é puxar a sua mão de lá. É abrir, no meio daquilo, um espaço que antes não existia: trinta segundos onde cabe uma pergunta. É o ponto do ciclo em que você volta a estar presente.

No começo esse espaço dura pouco e é preciso ir buscá-lo com esforço. Depois de algumas semanas, ele começa a aparecer sozinho, um pouco antes da mão.

Depois vem a outra metade, a que não se faz em crise: descer até a ferida que nunca foi vista, até a crença que governa sem você perceber, até o padrão que se repete há anos.

A prática que você aprendeu aqui te socorre no momento. A autoanálise te mostra como não precisar mais de socorro.

A compulsão não é o problema. É a forma que a sua dor encontrou de pedir atenção.

Felipe Lapa

Quem escreve

Felipe Lapa

Escritor, palestrante e instrutor de meditação, mindfulness e autoconhecimento. Há catorze anos, desde 2012, estuda e ensina esse caminho, e já acompanhou mais de quinze mil pessoas em palestras, cursos, retiros e mentorias. É autor de O Estudo da Vida: O Manual que Você Nunca Recebeu.

Entrevistado pela TV Globo, pela CBN e pelos jornais de Pernambuco. Palestras para mais de 40 empresas e instituições.

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