Felipe Lapa

BlogO que se repete

Ação e sensibilidade: quando uma delas foi desligada

Você sabe a decisão certa e não consegue agir, ou sente tudo com tanta força que qualquer problema vira tsunami. As duas capacidades que sustentam uma vida, o que acontece quando uma foi desligada e uma prática para treinar as duas juntas.

Felipe Lapa6 min de leitura

Você sabe que a decisão certa é aquela, mas tem algo dentro de você que simplesmente não deixa você agir. Ou então sente tudo com tanta intensidade que qualquer pequeno problema vira um tsunami, e o próximo passo prático some de vista. É como se houvesse uma briga constante no seu peito: um lado exige ordem, lógica e resultado, enquanto o outro pede espaço, acolhimento e sentido.

Muita gente passa a vida tentando calar um desses lados. Quem vive na razão tenta abafar a emoção porque aprendeu que ela é fraqueza ou descontrole. Quem vive no sentir costuma desconfiar da lógica, chamando-a de frieza ou rigidez. O resultado dessa guerra não é equilíbrio, é exaustão. É aquele cansaço que o sono não resolve, porque você gasta a energia do dia tentando controlar partes de si mesmo.

Duas capacidades, não dois tipos de pessoa

Todo mundo carrega duas capacidades que se completam. Uma é a da ação: dar direção, decidir, colocar limite, organizar, levar até o fim. A outra é a da sensibilidade: perceber o que se sente, escutar, acolher, deixar uma ideia nova chegar, encontrar sentido no que se faz.

Nenhuma delas tem a ver com ser homem ou mulher, com um jeito de ser ou com um papel na família. São capacidades humanas, e cada pessoa tem as duas. O que muda é quanto cada uma pôde se desenvolver, e quanto uma delas foi desligada pelo caminho, quase sempre porque, em algum momento, desligá-la pareceu mais seguro.

A confusão começa quando a gente mistura essas capacidades com caricaturas. Acha que agir é ser duro ou frio, e que sentir é ser frágil ou dependente. Não é. A ação saudável é foco e proteção: saber dizer “por aqui” e “até aqui”. A sensibilidade saudável é empatia e criatividade: saber perceber o que está acontecendo antes de decidir o que fazer.

A dor aparece quando uma das duas fica sozinha no comando. Ação sem sensibilidade vira rigidez, controle e dificuldade de ouvir. Sensibilidade sem ação vira transbordamento: emoção sem margem, falta de limite, a própria vontade sumindo para agradar o outro.


Quando a estrutura não tem sentido, e o sentir não tem chão

“Já tentei ser mais organizado, e não funcionou.” “Já tentei meditar para me acalmar, e só fiquei mais ansioso.” As duas frases são comuns, e as duas têm o mesmo motivo: tentar corrigir o lado que sobra, em vez de religar o lado que falta. Se você vive na rigidez, tentar “ser zen” à força é só pôr um curativo por cima. O que ajuda é deixar o sentir voltar a ter lugar, sem que isso signifique perder o controle. E se você vive no transbordamento, mais uma lista de tarefas não resolve. O que ajuda é um chão: um passo pequeno, decidido, levado até o fim.

Como esse desequilíbrio aparece nas relações

Quando uma das capacidades está desligada, a gente tende a procurar no outro o que falta em si. É por isso que tantas relações entram em ciclos que se repetem.

Quem desligou a própria capacidade de dar direção e colocar limite costuma acabar perto de pessoas controladoras e rígidas, e muitas vezes escolhe essas pessoas sem perceber. No começo, parece um alívio: “finalmente alguém que resolve as coisas por mim”. Com o tempo, o alívio vira prisão. Um vai se apagando, e o outro vai ocupando cada vez mais espaço.

O contrário também acontece. Quem vive na rigidez se encanta por quem traz leveza e emoção, mas depois sente raiva da “instabilidade” do outro e tenta moldá-lo à própria régua. Nos dois casos, a questão não é a outra pessoa. É a lacuna que você está tentando preencher através dela.


A prática15 min

Prática: foco e abertura ao mesmo tempo

Para parar de lutar contra si mesmo, vale treinar a mente para segurar as duas capacidades juntas. Não se trata de “limpar a mente”, mas de dar lugar ao que está presente. Esta prática leva cerca de 15 minutos. Você pode fazê-la agora ou reservar um momento do dia.

Passo 1: a âncora (3 minutos)

Sente-se com a coluna reta, sem tensão, pés apoiados no chão. Feche os olhos. Comece prestando atenção só na respiração, sentindo o ar entrar e sair pelas narinas. Aqui você exercita a ação: a disciplina de manter a atenção num único ponto.

Um exemplo

Se você notar que está pensando no boleto que vence amanhã, observe o pensamento, diga por dentro “estou respirando agora” e volte para o ar.

Passo 2: a abertura (5 minutos)

Agora, mude o jeito de perceber. Em vez de um ponto, sinta o corpo inteiro: o peso na cadeira, o contato da pele com a roupa, a temperatura do ambiente. Deixe as sensações chegarem sem tentar nomeá-las ou julgá-las. Aqui você exercita a sensibilidade.

Um exemplo

Você pode sentir um aperto no peito ou uma inquietação nas pernas. Não tente “soltar” o aperto. Só sinta a textura dele, como se estivesse tocando um objeto com a atenção.

Passo 3: as duas juntas (5 minutos)

Tente manter as duas coisas ao mesmo tempo: a atenção firme na respiração e a percepção aberta para as sensações do corpo. Observe o espaço entre o esforço de focar e a entrega de sentir.

Se não funcionar

O que fazer quando não funcionar

A mente vai tentar te convencer de que você está fazendo errado: “eu não estou sentindo nada”, “estou distraído demais”. Quando isso acontecer, não brigue com a distração. A briga é justamente a rigidez que a prática quer afrouxar.

Só reconheça: “olha só, a minha mente está me julgando agora”. Esse reconhecimento já é o exercício. Você saiu do piloto automático e voltou a observar. Volte com gentileza para a respiração e recomece.


Religar o lado que foi desligado

Essa integração não acontece num salto, mas em pequenos ajustes diários. Na próxima vez que vier a vontade de explodir com alguém por falta de organização, pergunte-se: “onde eu estou sendo rígido demais agora? O que eu estou tentando controlar para não ter que sentir medo?”.

E quando você se perceber paralisado pela dúvida ou pela emoção, pergunte: “que parte de mim precisa de direção agora? Qual é o menor passo prático que eu posso dar?”.

A razão sem sensibilidade fica cega, e a sensibilidade sem direção fica perdida. Você não precisa abrir mão de quem é. Pode só parar de ser refém da parte de você que acredita que a única forma de sobreviver é calando a outra.

A mente não desliga porque ainda está tentando resolver um conflito que só se resolve quando você para de lutar contra si mesmo e começa a estudar a sua própria arquitetura emocional.

Felipe Lapa

Quem escreve

Felipe Lapa

Escritor, palestrante e instrutor de meditação, mindfulness e autoconhecimento. Há catorze anos, desde 2012, estuda e ensina esse caminho, e já acompanhou mais de quinze mil pessoas em palestras, cursos, retiros e mentorias. É autor de O Estudo da Vida: O Manual que Você Nunca Recebeu.

Entrevistado pela TV Globo, pela CBN e pelos jornais de Pernambuco. Palestras para mais de 40 empresas e instituições.

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